A procurada do estado Majorie Madruga, defensora das ruínas do Hotel Reis Magos, fez textão no Facebook cheio de bobagens a respeito do novo Plano Diretor de Natal. Vamos publicar porque o texto é justamente ao contrário do que pensamos, mas é bom o leitor ter o outro lado:
"CIDADE DE NATAL, ANIVERSÀRIO E LUTO
Os bárbaros passaram sobre o Coliseu
Hoje a nossa Natal, cidade feita de sal, dunas, mangues, mar, mata atlântica e gente, faz aniversário.
No entanto, a celebração pelos seus anos – 422 – foi tomada de escuridão com a aprovação do Plano Diretor no último dia 23.
É festa e luto . E dor misturada com indignação o sentimento que nasce com esta aprovação. Olhando além, penso que talvez hoje seja o aniversário mais triste da nossa cidade, apesar dos grandes bens culturais que a gestão estadual está devolvendo à cidade do sol no último mês: Teatro Alberto Maranhão, Pinacoteca, Biblioteca e hoje, dia 25 de dezembro de 2021, a Fortaleza dos Reis Magos, o símbolo mais histórico desta cidade, seu próprio nascedouro.
A tristeza vem de saber que hoje marca o começo do fim da Natal como a conhecemos, da Natal que se oferece generosa ao nosso olhar, ao nosso deleite. Principia o termo da sua beleza cênica e da sua humanidade. A tristeza se apodera por saber que o desamor por ela prevaleceu, APESAR DE.
A nossa Natal está sendo cancelada, anulada, extinta pelo desejo de alguns poucos.
As cidades são feitas das relações entre as medidas de seu espaço, as características natas do seu meio ambiente natural e sua história. Para então projetar-se no futuro de forma sustentável e inteligente. Sem desumanizar-se.
Levar a cidade para este futuro é missão para os grandes – todavia, aqui vencem os pequenos.
A demolição do belíssimo prédio modernista do Hotel Reis Magos, por ação e omissão, em janeiro de 2020, era a Anunciação, para o que sabiam ler, da destruição maior, a da própria cidade.
Naquele momento afirmamos que o HIRM era NOSSA CIDADE. O amálgama que os unia era indissociável. Demolir o HIRM seria demolir a cidade na medida é que aquele era o símbolo da história desta. PRESERVAR O HIRM SERIA PORTANTO, PRESERVAR A NOSSA CIDADE, A NOSSA HISTÓRIA, A NOSSA MEMÓRIA.
A aprovação da “revisão” do Plano Diretor na véspera do Natal pela Câmara Municipal representa o início da morte da cidade e do nosso exílio, já que pouco restará da cidade que outrora conhecemos e vivemos, pois assassinados serão vários pontos da nossa identidade. Esta cidade de ventos e belíssimas paisagens, num futuro perto ou não tão distante, será apenas memória de alguns e imagem fotográfica a dizer que um dia a beleza e a qualidade de vida aqui foram rainhas.
A Natureza, tão generosa com a terra e o povo potiguar, foi traída. Neste território agridoce, ganhou o capital, a especulação imobiliária, a construção civil, o prefeito e alguns vereadores - eleitos para defender o interesse público e os direitos do povo e não para traírem a cidade e o cargo que ocupam.
A aprovação do novo Plano Diretor, disfarçado de processo revisório, pelos representantes do povo, autoriza na capital dos Reis Magos o Direito de Destruir, direito este já em vigor em outras áreas do Estado. Agora, instituído estar o Direito de Destruir as nossas paisagens, o patrimônio cultural do povo potiguar e de expulsar populações mais vulneráveis e que habitam historicamente determinadas áreas da cidade para a periferia ou para os “quartos de despejo” que toda capital brasileira infelizmente possui.
Aprendi que assim como fazem as abelhas, o homem nasceu para construir, para edificar. Aprendi que destruir não é humano. Destruir é antinatural.
Hoje, no dia em que a Fortaleza dos Reis Magos, símbolo de resistência e indestrutibilidade, é devolvida ao povo e aos que vem aqui conhecer nossas maravilhas, ironicamente havemos de indagar por quanto tempo a estrela de pedra e sal terá o direito de ser igualmente contemplada por todos do alto da ex Avenida Atlântica, hoje Av. Getúlio Vargas, como bem cultural que é. Quando passará a ser paisagem privativa de alguns?
Por quanto tempo estarão disponíveis aos nossos olhos, à nossa alma, ao nosso bem estar os arrecifes da Praia do Meio e do Forte, o Morro do Careca, as dunas da Redinha, os morros atlânticos e verdes que abraçam acolhedoramente a cidade com seus ipês coloridos anunciando a primavera tropical?
Paisagens estas que deveriam ser tombadas por constituírem PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO, por habitarem a memória( dos que as conhecem) e os sonhos daqueles que desejam vivê-la.
O novo Plano Diretor, projeto do Prefeito Álvaro Dias e aprovado pela Câmara Municipal de Natal, solapou parte essencial do Plano Diretor de 2007 : a proteção ambiental , garantidora de uma cidade humana e sustentável.
O novo Plano Diretor recém aprovado ignorou as contribuições da sociedade, feitas através das oficinas e dos seminários; se fez sem estudos que subsidiassem as mudanças significativas propostas e contrária aos que existem; ignorou os gravíssimos e urgentes efeitos das Mudanças Climáticas para uma cidade costeira; apoia-se em bases jurídicas feitas de areia e inconstitucionalidades, considerou tão somente os interesses do setor imobiliário e da construção civil.
Ao aprovar o novo PD, decidiu a Câmara Municipal contra a vontade de 92% da População que opinou pela MANUTENÇÃO DAS ZONA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL, ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, ÁREA DE RISCOS E UNIDADES DE CONSERVAÇÃO NA REVISÃO DO PLANO DIRETOR DE NATAl por entender estas como POSITIVAS PARA A CIDADE, segundo pesquisa feita pelo Instituto Conectar, a pedido da FIERN e Sistema Tribuna de Comunicação e publicada recentemente na Tribuna do Norte.
Assim como atuou contrariando 88% dos natalenses que avaliam a MANUTENÇÃO DE QUASE TODO CONTROLE DE GABARITO NA ORLA DE NATAL como POSITIVA PARA A PRESERVAÇÃO DA PAISAGEM.
Dados extremamente altos e significativos de valores que foram construídos ao longo das últimas décadas e que são reconhecidos pela população. Mas sabemos que a arquitetura e o urbanismo, como revelação do pensamento humano, expõem também os regimes. Simboliza o autoritarismo ou a liberdade. Seja na sua construção, seja na sua demolição. Não por acaso, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos Chileno, inaugurado em 2010, tem uma seção dedicada aos edifícios destruídos durante o regime ditatorial de Pinochet.
Assim como sabemos que a capacidade de preservação é um dos principais indicadores do nível civilizatório de um povo.
Heidegger dizia que é preciso habitar para construir. Como aqui nunca habitamos no sentido heideggariano do termo, não somos capazes de construir. Aqui, uma parcela relevante dos nossos gestores, dos nossos parlamentares e do setor privado só aprendeu a conjugar o verbo destruir em todas as suas formas.
Natal é uma cidade que vai se perdendo pouco a pouco. No porvir, restará uma cidade sem passado, sem patrimônio cultural, sem paisagens, sem futuro. Uma cidade sepultada pelo peso da especulação imobiliária, do frenezi urbanizador e do desejo de alguns poucos. Uma cidade onde o homem destrói mais que o próprio tempo.
Será Natal a nossa Maurília, das Cidades Invisíveis de Calvino, onde os viajantes que aqui chegam são convidados a visitar a cidade e ao mesmo tempo conhecer os cartões postais que mostram como esta havia sido bela, louvando-a e preferindo-a, mas “ tomando cuidado, porém, em conter seu pesar em relação às mudanças.mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades daquilo que foi.”
A Natal do futuro, que surgirá do novo Plano Diretor, não é, portanto, a cidade desejada pelos seus habitantes. Será apenas a cidade filha do capital e da traição dos homens públicos.
A luta pela defesa da cidade de Natal foi/é grande e longa. Desigual, como são todas as grandes e nobres lutas. Perdemos no momento. Mas, como disse Darcy Ribeiro, jamais gostaríamos de estar do lado dos que ora ganharam. Estes causam náuseas.
Resta-me agradecer profundamente aos que tanto lutaram para salvar Natal, aos que estavam diariamente no front por todos nós que não pudemos lá estar, especialmente ao Salve Natal e suas/seus incansáveis e resistentes guerreira(o)s, Forum Direito à Cidade, Departamento de Arquitetura da UFRN, Ministerio Publico Estadual na pessoa da Promotora Gilka da Mata; e aos vereadores Divaneide Basílio, Brisa , Pedro Gorgi, Roberio Paulino e Ana Paula, que cumprem seu papel e defendem os interesses públicos .
A luta por uma cidade para todos, feita por todos, continuará. A resistência contra a apropriação indevida da cidade seguirá firme e forme. Mudará apenas o local da luta.
Marjorie Madruga
Cidadã Potiguar, 25 de dezembro de 2021"