Por Marcus Aragão - @aragao01
É lastimável como ter um filho é visto como algo quase trivial. Muito se preocupa com a idade para ser mãe ou pai. Pouco se reflete para saber se tem condições muito além das financeiras para educar com amor uma vida. Muitas mães terceirizam a maternidade nos braços de babás que foram criadas em contextos que deixam a desejar. Têm mães que no máximo brincam de boneca quando o filho nasce. O bebê tem vida, anda, chora, dorme, faz cocô, vomita, tem febre, não deixa você dormir e vai viver muitos anos precisando do seu tempo, amor e paciência. Só que você não pode jogar sua boneca nova de lado pois filho é para sempre.
— Mãe, vem pra casa.
Outra coisa, pessoas que mal se conhecem, se casam — Não vou entrar neste mérito mas não deveriam ter filhos de imediato. Primeiro, o casamento tem que dá certo e não dá pra saber se dará certo em 4 meses. Seu próximo namorado pode ser o Dr. Jairinho e sua namorada, a Anna Carolina Jatobá que matou a pequena Isabela Nardoni. Não podemos esquecer.
— Eu te atrapalho, mãe? O tio disse que eu te atrapalho.
Ainda tem a alienação parental. Geralmente a mãe fala mal do pai a vida inteira e quando blinda o coração da criança, diz com hipocrisia: "Fale com ele pois é seu pai”, “Minha filha, não diga isso com seu pai". Eis o cúmulo do cinismo. Paciência. O pai sofre mas a criança sofrerá muito mais ao longo da vida. Nesses casos, é como se a mãe oferecesse a criança para ser sacrificada em oferenda ao deus da vingança. Oremos.
— Mamãe, volta logo.
A situação parece ser bem pior. Confesso que tenho dificuldade de fazer este artigo porque a revolta é grande e me incomoda demais pensar sobre isso tudo. Mas se é difícil para nós adultos aceitar essa dura realidade, imaginemos o sofrimento das indefesas crianças. Continuando, uma pesquisa realizada pelo Ministério dos Direitos Humanos mostrou que, no ano de 2018, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) recebeu 17.093 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. Nos casos de abuso, 73,44% das vítimas são meninas. E o pior está em saber que em 70% dos casos tem como autor o pai, o padrasto ou a mãe da criança. Quando incluímos os tios, primos e outros parentes chegamos a 90% dos casos de violência contra elas — Os absurdos ocorrem dentro do ambiente familiar. E nem vou falar aqui dos escândalos que existem envolvendo padres, e também alguns professores, médicos e treinadores. Também não falarei hoje sobre bullying.
Escutemos o que as crianças tem a dizer. É tentador e mais fácil relevar e achar que não é nada demais - que isso é exceção — mas lembre que não são poucos os casos de abusos no Brasil. Apenas 10% dos casos são denunciados. A saída para este problema começa em darmos ouvidos para elas e denunciar sempre. Você quer salvar o mundo, o planeta, os animais, o verde, a calota polar e a camada de ozônio mas não quer mexer um dedo e discar 100 para salvar uma criança?
— O tio bateu em mim.
Que o nosso anjinho Henry tenha vindo com a missão de alertar sobre os maus tratos que milhares de crianças estão sofrendo neste momento em nosso prédio, em nossa rua, na cidade e por todo país. Refletir sobre isso é o mínimo que devemos fazer e, principalmente, que façamos algo para que tragédias desse tipo não se repitam. Vamos salvar os outros Henrys.