Texto de Tarcila Fontes, médica do Houl e da Casa de Saúde São Lucas
“Ninguém morre no meu plantão.”
Bonito. Heroico. Bacana de se ver na cena da série.
Mas nem sempre é assim que acontece. Especialmente quando tratamos de uma doença que o Mundo ainda está conhecendo.
Estamos há quase um ano e meio lidando com ela. Em algumas situações, perplexos olhando monitores com oxigenação tão baixa que não dá pra explicar como aquele paciente ainda se mantém vivo. E, exauridas TODAS as medidas possíveis dentro dessa nossa escassez (de recursos, de políticas públicas, de vacinas, de bom-senso), a equipe apenas assiste.
Estamos enfrentando a Ceifa levando jovens. Pessoas, muitas vezes sem comorbidades, que ainda não tiveram acesso à vacina. É. Os velhinhos estão morrendo menos. A vacina funciona. “Ah, vou tomar a vacina A porque a B dá muita reação, fulana tomou e ficou mal, eu vi no Facebook.” Viramos sommeliers de vacinas.
Nessa onda de pacientes jovens, vemos a inversão da “ordem natural das coisas”. Vemos idosos perdendo seus filhos, seus netos. São familiares, em dois, três, cinco, chamados pela Assistência Social do hospital para comparecer à UTI, “precisamos que os senhores venham, só podemos falar pessoalmente…” e dói, viu? Dói olhar pro rosto desesperado de pais, filhos, cônjuges, e dizer a eles que aquela pessoa que saiu de casa há dias / semanas não voltará nunca mais. Sem condições para um adeus. Dane-se a ordem natural das coisas quando o doente é do seu sangue.
“Ah, Tarcila, não faça terror. Não fique postando essas coisas, só apavoram o povo mais ainda”. Infelizmente, esta é a MINHA realidade. Não tenho outra para mostrar. Não posso postar festas clandestinas. Não posso postar aglomerações em Campos do Jordão. Gostaria de chamar a atenção para o que eu e meus bravos colegas vivemos, todos os dias enxugando gelo nos hospitais públicos e privados. Se esta postagem virar a chave na mente de duas, três pessoas, eu já terei cumprido minha missão.
Não espere ver para crer. Garanto que é uma dor excruciante. Para vocês, e para nós.