P assada a pandemia, o Brasil já se beneficia da tendência mundial de retomada nas viagens a lazer e avança na captação de divisas trazidas pelos turistas. De janeiro a agosto, mesmo com um fluxo de visitantes ainda aquém do verificado antes do coronavírus, o turismo externo injetou no país US$ 4,45 bilhões.
Os US$ 657 milhões deixados por estrangeiros em agosto foram o melhor resultado para o mês em 28 anos, desde que o Banco Central passou a acompanhar o fluxo de divisas de viagens internacionais. “O Brasil voltou à prateleira”, diz o presidente da Embratur, Marcelo Freixo.
Ele destaca a reconexão do país com seus grandes mercados de turistas estrangeiros — América Latina, Estados Unidos e Europa. Quem é do ramo sabe que, mesmo com todas as belezas naturais e atrativos culturais, o Brasil ainda atrai um número reduzido de visitantes. O potencial do turismo externo está longe de ser explorado como deveria.
A imagem do país continua a ser afetada por fatores como a baixa qualidade dos serviços ou o recrudescimento da violência, que continua a afastar turistas. Ainda assim, nos oito primeiros meses do ano, o país recebeu 4 milhões de visitantes, 11% a mais que os 3,6 milhões do ano passado.
Em 2019, antes da pandemia, haviam sido 6,4 milhões. Para perceber como isso é pouco, nem é preciso fazer comparações com os maiores polos turísticos, como Estados Unidos ou França. O Brasil recebe menos da metade dos turistas que visitam apenas a cidade inca de Machu Picchu, no Peru, de acordo com Cesar Fernandes, presidente da Associação Brasileira de Turismo Receptivo (Recept).
A Grécia acolhe 30 milhões de visitantes por ano, o triplo da população. Ir a Atenas e visitar ilhas gregas serve de aprendizado a qualquer operador turístico. Em pouco tempo contratase a viagem, aluga-se carro no destino, remarcam-se voos para qualquer lugar do mundo. Há uma azeitada indústria em funcionamento.
As dimensões ainda acanhadas do setor no Brasil são indicador do potencial de crescimento. “Há enorme demanda por lazer, experiência e novos destinos no pós-pandemia”, diz Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação. “O Brasil é competitivo, com oferta de voos e câmbio favorável. Hotéis que investiram em modernização estão surfando esta onda. Já vemos hotéis e resorts anunciando expansões no Nordeste, em Minas Gerais e mesmo no interior do Rio.”
Há pouco, a pedido do Rio, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) autorizou governos estaduais adevolver o ICMS a turistas que fazem compras no país, o “tax refund” tão comum no exterior. É um bom exemplo da necessidade de conexão entre o setor privado e o público.
O Estado também precisa encarar como prioridade a segurança pública, de modo a reverter a imagem deteriorada do Brasil. Se cada um fizer a sua parte, e os turistas sentirem vontade de voltar, o país poderá contar com mais uma importante fonte de divisas além do agronegócio. Não há motivo para que não seja assim.
Opinião - O Globo