O recado do governo é claro: retaliar responsáveis por notícias desfavoráveis
CAMPANHA DE SETORES GOVERNISTAS CONTRA O ESTADÃO POR CAUSA DA SÉRIE DE REPORTAGENS SOBRE A ‘DAMA DO TRÁFICO’ MOSTRA MAIS UM GIRO NO PARAFUSO DO AUTORITARISMO E DA TRUCULÊNCIA
A campanha que setores governistas coordenaram contra o Estadão nos últimos diaspor causa da reportagem sobre a “dama do tráfico do Amazonas” não é exatamente contra o jornal ou seus profissionais. A advertência é mais ampla. Caso jornalistas se atrevam a produzir reportagens exclusivas, investigativas, que de alguma maneira machuquem o governo de plantão, haverá retaliação promovida tanto por políticos da br, autoridades com poder, quanto por sicários das redes sociais, incluindo os remunerados, os manipulados e os extremados.
O que conseguiram com tudo isso por enquanto? A reportagem sobre a “dama do tráfico”, de André Shalders e Tácio Lorran, se tornou a mais importante do jornalismo brasileiro neste ano de 2023 pelo que revelou sobre os atuais donos do poder e pelas suas consequências. E dificilmente será batida.
Podia ser tudo diferente se os governistas fossem mais habilidosos. A série de matérias do Estadão iniciadas dia 13 deste mês revelaram que Luciane Barbosa Farias, esposa de um chefe do Comando Vermelho do Amazonas, esteve por três vezes em Brasília este ano, recebida por autoridades do segundo escalão. Em uma das viagens, teve a passagem paga por um ministério.
Esses eram os fatos básicos – de maior impacto. É possível até relativizar a matéria no sentido de que autoridades e políticos de Brasília recebem e tiram fotos com dezenas de pessoas por mês. Que burocratas realizam tantas audiências que às vezes não conhecem as pessoas com quem se encontram no gabinete oficial. Isso é tão comum, que após a publicação das matérias do Estadão, o Ministério da Justiça anunciou que mudaria seu sistema de checagem.
Mas parte do governo adotou, digamos, uma estratégia terrorista – no sentido de buscar a destruição do que considera impertinente. Tentaram acuar o Estadão tanto institucionalmente quanto no CPF das pessoas físicas envolvidas na produção da matéria. Contra o jornal foram disparadas as injúrias vazias de sempre de quem é rasteiro no debate político: direitista, fascista, etc.
No caso da perseguição contra a editora-executiva do jornal, Andreza Matais, houve mais impiedade. A trataram como uma “inimiga do povo”, uma técnica meio maoista de cerceamento. A escalada se deu com postagens da própria presidente do PT, Gleisi Hoffman, e após isso, por meio do influencer Felipe Neto, que expôs a foto da jornalista para seus 16,6 milhões de seguidores. O que queriam? Que a profissional não pudesse nem mais sair de casa?
Macartismo feito, o influencer voltou atrás. Fica até mesmo a reflexão para o jornalismo. Por que ajudamos a empoderar como analista político um Youtuber que tem como prática rotineira agredir quem o desagrada ou diverge do que pensa? Felipe Neto atacou Lula, Bolsonaro, tucanos, e todos mais que o chatearam. Não sabemos por que motivos seus posicionamentos coléricos não podem ser chamados de discurso de ódio.
Fabiano Lana - Estadão