Rombos como o das Americanas S.A. aconteceram também em ao menos cinco grandes empresas nos últimos anos. São elas Kraft Heinz, CVC, IRB Brasil, Via e Grupo Itapemirim. Os valores chegam à casa dos bilhões, e cada caso teve um desfecho diferente —no mais grave deles, foi decretada falência. Relembre as histórias:
Kraft Heinz
A empresa foi acusada de falsificação de contratos. Em fevereiro de 2019, a comissão reguladora do mercado de capitais nos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) apontou distorções em balanços de 2016, 2017 e 2018 da Kraft Heinz. Os erros envolviam principalmente a área de compras, acusada de falsificar contratos com fornecedores, mascarando seus gastos e, por consequência, inflando seu lucro.
A fabricante de alimentos corrigiu e republicou seus balanços, que passaram a apontar uma baixa contábil de US$ 15,4 bilhões — ou R$ 57,6 bilhões, na cotação da época. Depois, em 2021, a Kraft Heinz fez um acordo com a SEC e pagou multa de US$ 62 milhões para encerrar as investigações por suposta má conduta contábil.
A Kraft Heinz é controlada pela 3G Capital, dos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Os três são os principais acionistas das Americanas S.A.
Números do 3º trimestre de 2022:
Vendas: US$ 6,51 bilhões (+2,9% na comparação anual)
Receita bruta: US$ 1,84 bilhão (2021: US$ 2 bilhões)
Ebitda (lucro antes de juros e descontos): US$ 1,40 bilhão (2021: US$ 1,48 bilhão)
CVC
Análise apontou erros contábeis entre 2015 e 2019. Em fevereiro de 2020, quando preparava o balanço do ano anterior, a CVC encontrou indícios de erros contábeis em valores transferidos a fornecedores. Inicialmente, a empresa disse que o impacto dessas inconsistências poderia ser "da ordem de R$ 250 milhões", considerando o período entre 2015 e 2019.
Depois, o rombo passou a ser estimado em R$ 362 milhões.
A situação se arrastou por meses. Um ano depois, quatro membros do Conselho de Administração renunciaram — entre eles, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank. Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", o CEO Leonel Andrade negou que a debandada tivesse relação com os erros contábeis.
Números do 3º trimestre de 2022:
Receita líquida: R$ 337,6 milhões (+25,2% na comparação anual)
Ebitda (lucro antes de juros e descontos): R$ 50,9 milhões (2021: - R$ 600 mil)
Prejuízo líquido: R$ 75 milhões (2021: R$ 94,8 milhões)
IRB Brasil
A empresa divulgava lucro, mas auditoria apontou prejuízo. Uma análise da Squadra Investimentos feita no final de 2019 apontou para supostos erros contábeis em balanços trimestrais do IRB Brasil, como explicou a Folha de S.Paulo. Segundo a gestora, a empresa acumulou prejuízo de R$ 112 milhões nos primeiros nove meses de 2019. Mas o IRB divulgou lucro de R$ 1,39 bilhão no mesmo período.
A empresa também foi acusada de divulgar mentiras a respeito de um investimento do bilionário Warren Buffett — aporte que nunca existiu.
A crise custou ao IRB ao menos R$ 24 bilhões em valor de mercado à época e levou à renúncia do então presidente, José Carlos Cardoso, e do diretor financeiro, Fernando Passos. Uma investigação interna confirmou as irregularidades e identificou os responsáveis pelas mentiras envolvendo Buffett. Os nomes, porém, não foram divulgados.
Números do 3º trimestre de 2022:
Resultado financeiro e patrimonial: R$ 173,2 milhões (2021: R$ 256,8 milhões)
Prejuízo líquido: R$ 298,7 milhões (2021: R$ 155,7 milhões)
De janeiro a setembro de 2022, o prejuízo líquido acumulado chegou a R$ 591,6 milhões. No mesmo período de 2021, era de R$ 311,8 milhões
Via (antiga Via Varejo)
Análise identificou fraude de até R$ 1,2 bilhão em balanços. Em dezembro de 2019, a Via — dona de Casas Bahia, Ponto e Extra.com — informou ter encontrado indícios de fraudes nos balanços. A irregularidade, segundo a própria empresa, podia variar de R$ 1,05 bilhão a R$ 1,2 bilhão.
Boa parte desse rombo era relacionada ao pagamento de processos trabalhistas decorrentes de demissões feitas desde 2011, em uma estratégia de enxugamento do quadro de funcionários.
Uma investigação independente confirmou a fraude contábil, com valor final de R$ 1,19 bilhão — dentro das estimativas iniciais. À época, a empresa disse ter reajustado os balanços e que não houve "impacto relevante" em seu fluxo de caixa.
Números do 3º trimestre de 2022:
Receita líquida: R$ 7,01 bilhões (2021: R$ 7,35 bilhões)
Ebitda (lucro antes de juros e descontos): R$ 475 milhões (2021: R$ 669 milhões)
Prejuízo líquido operacional: R$ 135 milhões (2021: lucro de R$ 101 milhões)
Grupo Itapemirim
A Justiça decretou falência após seis anos de recuperação judicial. Em recuperação judicial desde 2016, o Grupo Itapemirim teve sua falência decretada pela Justiça de São Paulo em setembro de 2022. A decisão definiu um prazo de até 180 dias para que o administrador judicial venda todos os bens da empresa, cujas dívidas tributárias somam cerca de R$ 2,8 bilhões.
Credores acusavam o grupo de desviar dinheiro para financiar a ITA, companhia aérea que começou a operar em junho de 2021. As atividades da empresa foram suspensas repentinamente pouco tempo depois, às vésperas do Natal e do Ano Novo, pegando passageiros de surpresa.
Em fevereiro do ano passado, o então presidente do grupo, Sidnei Piva de Jesus, foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica e teve seu passaporte apreendido.
UOL