O executivo Sergio Rial, ex-banco Santander, que presidiu as Americanas entre 2 e 11 de janeiro e denunciou ao mercado financeiro as “inconsistências contábeis” das Americanas, participou da audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, nesta terça-feira (28), e classificou o controlador anterior das Americanas, Miguel Gutierrez, como “centralizador”.
Rial afirmou ainda que, entre setembro e dezembro de 2021, participou de 21 reuniões na empresa como consultor. Mas que, apenas em janeiro, após assumir formalmente o comando da companhia, foi informado por dois diretores sobre os problemas no balanço patrimonial.
“Não recebi algo no papel”, esclareceu. “Não recebi algo como se fosse um mapa. Extraía a conta-gotas as informações dia após dia. Não havia uma predisposição para explicar tudo que aconteceu. Nada disso”, denunciou.
“O que eu sabia é que a empresa tinha muito mais dívida bancária do que havia reportado”, explicou Sérgio Rial, “e o que eu não sabia: como conseguiram fazer isso durante tanto tempo e porquê.
“Dívida bastante grande”
O atual diretor-executivo das Americanas, Leonardo Pereira, reconheceu durante audiência pública, na CAE, que a dívida da empresa “é bastante grande”, mas disse que a intenção inicial era pagar os débitos com pequenos credores. Dos 9,5 mil credores incluídos no plano de recuperação judicial, 4,5 mil são trabalhadores da empresa ou micro e pequenas empresas.
“A gente tentou retirar aqueles credores menores, que são muito machucados nesse processo”, disse ele, afirmando que a companhia começou a pagar, “mas veio o recurso de um banco, pedindo para suspender os pagamentos. De R$240 milhões, a gente pagou R$120 milhões para esses credores”.
O senador Angelo Coronel (PSD-BA) criticou a atuação da empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC), mas destacou que a imagem e a credibilidade das Lojas Americanas precisam ser preservadas, para garantir a manutenção do emprego dos mais de 40 mil trabalhadores:
“Por mais que tenha acontecido esse rombo no balanço e um erro grosseiro por parte de Price, as Americanas continuam sendo uma empresa solvente. Acredito que caberá aos acionistas majoritários, para acabar com essa pendenga, chamar seus fornecedores e pagar suas dívidas porque existe capital para isso. Se ficar somente na hostilização da marca, termina essa marca sendo degradada, e quem vai acabar perdendo com isso são os funcionários”.
“Recuperação judicial é desumana”
O presidente da CAE, senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), classificou como “inadmissível” a PwC “não perceber um rombo como esse”. O parlamentar também demonstrou “estranheza” com o fato de os acionistas de referência das Americanas, donos da holding 3G Capital — os empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — ainda não terem honrado os compromissos das Americanas com os credores, especialmente, os menores.
“O que me causa estranheza é que os acionistas majoritários, que eram referência de prosperidade para nós, empresários brasileiros, pessoas empreendedoras, que viraram livro, não colocaram a mão no bolso nesse momento em que muitos estão agonizando e alguns tentando o suicídio”, afirmou.
Para Cardoso, “a recuperação judicial é desumana, com deságio de até 70% e parcelamento em 48 vezes”.
Diário do Poder