O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quinta-feira que a meta de inflação seja elevada se isso for necessário para reduzir a taxa de juros. Em café com jornalistas, Lula voltou a criticar o Banco Central e disse que “humanamente impossível” o país crescer com o atual patamar da taxa básica de juros Selic, que hoje está em 13,75% ao ano.
— Eu não sei se foi a partir de algum de vocês (jornalistas), mas esses dias eu li uma frase que eu não sei se foi dita pelo presidente do Banco Central que, para atingir a meta de 3%, precisaria de juro de 20%. Não sei se foi verdade isso, mas no mínimo é uma coisa não razoável. Porque se a meta (de inflação) está errada, muda-se a meta — disse Lula.
Ele afirmou que o governo vai lançar um programa de crédito como indutor do crescimento como parte dos anúncios pelos 100 dias de seu governo. Mas, para o país voltar a crescer, disse o presidente, é preciso ter juros mais baixos e oferta de crédito.
A meta de inflação é um parâmetro perseguido pelo Banco Central, que tem no manejo da taxa de juros um dos principais instrumentos para buscar o controle do nível de alta dos preços na economia. Ela é definida pelo Conselho Monetário Nacional, formado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Meta de inflação cabe ao Banco Central
Lula disse que a meta é "um problema do Banco Central". E voltou a lembrar que, no seu governo anterior, as metas foram cumpridas. Ele provocou de forma indireta a direção do Banco Central, que prevê o descumprimento da atual meta de inflação:
— Apenas contei um caso que o presidente do BC disse isso. Nem contei quem. Já estabeleci meta neste país. Já cumprimos meta. Conseguimos fazer. Se você tem alguém que estabelece uma meta e não vai cumprir é como você estabelecer uma meta pra sua vida e não cumprir, então você está mentindo pra si mesmo.
A meta de inflação para este ano é de 3,25%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Para 2024 e 2025 o índice é de 3%.
Lula também enfatizou que a taxa básica de juros no país, que hoje está em 13,75% ao ano, prejudica o funcionamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) como indutor do desenvolvimento econômico.
— Não é possível a economia funcionar. E isso qualquer empresário diz. Eu estive reunido com o pessoal do varejo, da indústria. É impossível imaginar, inclusive o BNDES, emprestar dinheiro para o desenvolvimento com uma taxa de juro real tão alta assim.
O presidente disse ainda que, após voltar de sua viagem à China, pretende discutir novas políticas de crédito para diferentes atores no país.
— Vamos começar uma outra fase do nosso governo que é fazer a economia voltar a crescer e voltar a oferecer crédito nesse país. Vamos ter que discutir com muita clareza quando eu voltar da China a política de crédito para pequeno e médio empreendedor, para as cooperativas, para o agronegócio, pequenos e médios empresários, pequeno e médio agricultor.
Lula enfatizou a importância da circulação do dinheiro para retomar o crescimento da economia. Segundo ele, “tem gente pegando juros a 30% no mercado para fazer investimento e não é possível o país continuar assim”:
— Não é possível a gente imaginar que se possa estabelecer crédito com taxa de juros de 16%, 17% ou 18%. (.) Só com a circulação de dinheiro é que vamos poder retomar o crescimento da economia. Não existe milagre, não existe outra possibilidade.
O Globo