Lula ainda não entendeu que não foi a esquerda que o elegeu, e sim a aversão que grande parte do eleitorado de centro nutria por Bolsonaro. Continua convicto de que as urnas lhe conferiram mandato para levar adiante ideias arcaicas das alas mais atrasadas do PT. E ainda não parece ter percebido a real extensão das restrições que lhe serão impostas pela sólida maioria de centro-direita eleita para o Congresso Nacional.
O discurso econômico do governo não dá sinais de melhora. Parece cada dia mais torto. E não chega a ser surpreendente que lhe venha causando sérios embaraços no Congresso.
As eleições para as Mesas da Câmara e do Senado já prenunciavam as dificuldades que Lula enfrentaria para construir uma base governista minimamente sólida. Mais difícil ainda se tornou o desafio quando o Planalto deixou claro que a ideia não era propriamente montar um governo de coalizão. O presidente nem mesmo tentou dissimular que a participação de outros partidos no Ministério não tinha outro objetivo que o de angariar apoio em votações no Congresso.
Agora, o Planalto deu-se conta da precariedade da base que pensou ter armado no Congresso. Tendo sido incapaz de bloquear a criação de duas CPIs de enormes custos políticos – a do 8 de Janeiro e a do MST –, o governo viu-se obrigado a jogar a toalha na tentativa de aprovar o PL das Fake News. Pior ainda, não teve como impedir que, por decreto legislativo, a Câmara derrubasse, por 295 votos a 136, trechos dos impensados decretos de Lula que alteravam o Marco do Saneamento.
O Planalto tinha razões de sobra para querer bloquear a criação da CPMI do 8 de Janeiro. Por mais que a comissão pudesse servir para reforçar a incriminação de bolsonaristas, o governo não teria como evitar que as investigações também lhe fossem desgastantes, tendo em conta a incúria com que se permitira não tomar as precauções que se faziam necessárias para lidar com a altíssima probabilidade de ocorrência de uma baderna daquele tipo. Mas o bloqueio tornou-se inviável.
Já a CPI do MST foi só o desfecho inevitável da crescente irritação do Congresso com a irredutível complacência – completamente irracional – que o governo continua a ter com invasões de propriedades rurais pelo MST, não obstante a insegurança que isso vem trazendo ao agronegócio, o setor mais dinâmico e promissor da economia.
Já é hora de o Planalto mostrar mais lucidez no seu discurso e mais discernimento na difícil gestão dos limitados recursos políticos com que de fato conta.
Rogério Werneck - Estadão