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Folha de São Paulo: Calote companheiro - Com Argentina, Lula de novo ensaia apoiar políticas irresponsáveis de aliados

Calote companheiro

Com Argentina, Lula de novo ensaia apoiar políticas irresponsáveis de aliados

Como se não tivessem bastado os calotes de Cuba e Venezuela em dívidas com o Brasil contraídas durante administrações petistas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) insiste em adotar afinidades ideológicas como critério definidor das relações internacionais.

O caso do momento é a Argentina, em profunda crise econômica. No encontro com o presidente Alberto Fernández, o mandatário brasileiro recorreu ao velho expediente de associar o Fundo Monetário Internacional, principal credor, às mazelas do país vizinho.

Para Lula, o FMI deveria "tirar a faca do pescoço da Argentina", ignorando todas as negociações anteriores cujas condições foram descumpridas pela Casa Rosada.

É antiga a fixação da esquerda latino-americana em culpar o Fundo pela instabilidade econômica da região. Se no passado, quando os fluxos internacionais de capital privado eram restritos, a queixa poderia ter algum fundamento, no mundo atual é delirante manter o mesma cantilena.

A responsabilidade pelo caos argentino é de sucessivos governos —à direita ou à esquerda, mas todos reféns do peronismo— que geriram a economia de modo irresponsável. Fernández e suas políticas populistas tornaram a situação mais dramática nos últimos anos.

Não é por acaso que a inflação supera 100% ao ano e que o peso derrete continuamente. O caminho, infelizmente improvável, seria um ajuste de contas interno de grande magnitude, que permitisse a recuperação da credibilidade da moeda e das finanças públicas.

O Brasil, naturalmente, perde com a deterioração da economia argentina. É notável que um país fronteiriço e com amplo potencial tenha absorvido em 2022 apenas 4,6% das exportações brasileiras, equivalentes a US$ 15,3 bilhões. É uma fração da posição de 20 anos atrás e menos, por exemplo, do que as vendas para Oriente Médio.

Felizmente, Lula ainda não entregou dinheiro brasileiro ao vizinho, limitando-se a uma tentativa até aqui infrutífera de ampliar o comércio por meio de promessas de crédito a exportadores brasileiros e compradores argentinos.

Entretanto nenhum mecanismo de financiamento bilateral, ainda que conte com garantias, será capaz de evitar inadimplência se o próprio governo argentino não colocar sua casa em ordem.

A nova promessa do petista é tentar alterar o estatuto do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics, hoje presidido por Dilma Rousseff (PT), para dar garantias a Buenos Aires. Eis mais uma invencionice temerária, já que a instituição tem como mandato financiar apenas os países membros.

É natural que o Brasil, por seu peso na América Latina, exerça influência na região. O pior modo de fazê-lo é justamente dando suporte a políticas fracassadas que sabotam o desenvolvimento de todos.

Folha de São Paulo

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