Práticas antiassédio são adotadas por grandes empresas preocupadas com os princípios do que se convencionou a chamar de ESG – sigla em inglês para políticas focadas em sustentabilidade ambiental, social e de governança corporativa (Environmental, Social and Governance). Mas até agora eram novidade nos bares.
O caso do jogador de futebol Daniel Alves, na Espanha, mudou isso e teve um impacto muito grande no mercado de bares no Brasil. As franquias de bares também foram influenciadas.
Duas delas – a Folks Pub e a Salomé Bar –, por exemplo, criaram regras antiassédio para proteger suas clientes.
A história toda começou em janeiro deste ano, quando Alves foi preso em Barcelona, acusado de estuprar uma jovem em uma boate no final do ano passado. Ele está detido desde 20 de janeiro.
O atleta pode se tornar a primeira celebridade a ser condenada por uma nova lei espanhola, que determina punições mais severas para crimes contra mulheres, aprovada em outubro do ano passado.
A lei, conhecida como “Só sim, é sim”, entrou em vigor depois de um caso que chocou o país em 2016. Uma mulher de 18 anos foi estuprada por cinco homens que se comunicavam por um grupo de WhatsApp chamado “La Manada”.
A Justiça espanhola considerou o caso apenas como abuso sexual, e não como estupro – o que desencadeou protestos e pressionou a criação da nova lei e também mudanças nos bares do país europeu.
Efeito replicador
A repercussão no Brasil foi tão grande que o governo de São Paulo sancionou a lei 17.621 que obriga bares, restaurantes, casas noturnas e de eventos a adotar medidas de auxílio à mulher que se sinta em situação de risco.
Pela lei, os bares precisam treinar todos os funcionários para identificar e combater o assédio sexual e a cultura do estupro – além da fixar cartazes nos banheiros femininos ou em qualquer ambiente do local, informando a disponibilidade do estabelecimento para o auxílio à mulher que se sentir em situação de risco.
“A lei é só em São Paulo, mas resolvemos estender o treinamento e a campanha para nossas 11 unidades em outros estados. A maior parte de nosso público é de mulheres. Elas têm que se sentir seguras para continuar frequentando os bares”, diz José Marcos Braguin, fundador e diretor executivo da Cia. de Bares Franchising – da rede de franquias Salomé Bar e Yolanda Botequim, com 19 bares em 7 estados.
A rede Folks Pub, onde pelo menos 60% do público é feminino, também adotou uma estratégia para proteger sua clientela. Nos 12 bares da rede, presente em quatro estados, existe um cartaz no banheiro feminino com um nome de um drink que não está no cardápio.
“É a senha: se a cliente pede esse drink, a gente já sabe que ela está pedindo ajuda de forma velada”, diz Francis Albert de Lima Soares Piltz, diretor do Folks Pub.
Nessa hora, o time de atendimento está treinado para levar a vítima para um lugar seguro e chamar a polícia – ou a segurança local – se for preciso.
Nas duas redes, nenhum caso de atendimento foi registrado até agora. “A gente mostra que preza pelas nossas clientes e isso já afasta muita coisa, filtra a situação”, diz Piltz.
“A gente sabe que vive num ambiente propício para isso. A bebida desperta o melhor e o pior das pessoas. Se juntar a música, então, elas ficam ainda mais soltas e tudo pode acontecer. Então é bom que todos fiquem sabendo qual é a postura do bar”, afirma Braguin, que decidiu colar os cartazes antiassédio não só nos banheiros femininos, como nos masculinos e em todos os ambientes do bar – “para deixar bem claro”, segundo ele, que esse comportamento não é aceito.
Ele lembra que a equipe do Salomé também está treinada para fazer valer outras leis, mais antigas, como 8.069, de 1990, que tornou crime a venda de bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes menores de 18 anos. “Uma vez uma família estava no bar e eles pediram bebida para o filho, de 16 anos. Nos recusamos a servir e pedimos, com muito tato para que eles fossem embora”, conta Braguin.
Estadão