Ao ser interrogado na quarta-feira, diante dos jurados, da juíza e de duas promotoras, o traficante Fabiano Atanásio da Silva, o FB, de 46 anos, fez um comentário que soou como intimidação: “A covardia que pode ser feita hoje, amanhã essa pessoa pode sofrer uma também”. A frase foi dita onze horas depois do início de seu julgamento pelas mortes de três policiais militares e a tentativa de homicídio de outros seis durante o ataque a um helicóptero da PM no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. Os PMs que morreram estavam na aeronave, abatida a tiros por traficantes, em 2009.
Nem o mal-estar causado pelo comentário feito por Atanásio, interpretado pelos presentes como uma intimidação, o livrou de uma condenação de 225 anos de prisão e 1.200 dias de multa pelos três homicídios dolosos, quando há intenção de matar, e seis tentativas pelo mesmo crime. Entre os seis, três deles chegaram ao local em socorro aos agentes da aeronave, que foram atacados a tiros.
Embora não tenha sido identificado quem atirou no helicóptero da Polícia Militar, em 17 de outubro de 2009, a promotoria usou como argumento que Atanásio, um dos chefes do tráfico da maior facção criminosa do estado, comandou a invasão no Morro dos Macacos, à época, ocupado pelo bando rival. Além disso, até a letra de um rap atribuía ao traficante Fabiano Atanásio, segundo as promotoras do caso, Fernanda Neves e Carmen Eliza Bastos, a autoria da queda da aeronave como sinal de poder.
Durante o julgamento, o Ministério Público do Rio (MPRJ) ressaltou que Atanásio era o único chefe da facção solto à época e que, no decorrer das investigações da Polícia Civil, houve a interceptação de ligações do bandido planejando a invasão ao Morro dos Macacos. Para isso, dois meses antes do ataque ao helicóptero, Atanásio, considerado chefe do tráfico dos Complexos do Alemão e da Penha, comprou fuzis do traficante de armas Antônio Jorge Gonçalves dos Santos, conhecido como Toni Senhor das Armas.
Num dos trechos das conversas citado pela promotora Fernanda Neves, que constava num outro processo contra o então chefe do Complexo do Alemão e da Penha, da 32ª Vara Criminal da capital, o traficante fala com outro bandido para "dá uma fuzilada lá, pelo menos, de AK (45) lá" (sic). Para a representante do MPRJ, a "fuzilada" seria contra os policiais militares do local. O trecho foi interceptado pela polícia em 30 de abril de 2008, portanto, antes da queda do helicóptero.
No dia da queda do helicóptero, segundo o sargento Anderson dos Santos, um dos policiais militares que sobreviveu ao ataque, havia um grupo de traficantes da facção de Atanásio na favela. Durante o julgamento, o PM contou que, do alto, chegou a vê-los armados com fuzis.
A sentença com a condenação de Atanásio foi lida na manhã de quarta-feira pela juíza Tula Corrêa de Mello, do III Tribunal do Júri da Capital. Na decisão, a magistrada definiu a ação do tráfico contra a aeronave dos policiais como um "ato terrorista", por se tratar de uma força do estado, o que traz ainda uma "sensação de insegurança à população".
O advogado de defesa de Atanásio, Cláudio Dalledone, afirmou, durante o julgamento, que "estava arriscando a própria vida para defender o pobre diabo", referindo-se ao seu cliente. Segundo Dalledone, o traficante era uma vítima do estado.
Atanásio assistiu ao julgamento do Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, onde cumpre condenação por outros crimes, desde 2012. Ele confessou ser traficante da Vila do Cruzeiro, na Penha, desde 1997, quando chegou a ser gerente do tráfico, negando ser chefe. Em alguns momentos, sentado ao lado de uma advogada, ele era flagrado sorrindo durante o julgamento, pela câmera da videoconferência. Quando algumas vítimas do ataque, policiais que estavam no helicóptero, contavam sobre o drama que viveram com o helicóptero em chamas, era possível ver Atanásio rindo.
— Eu era traficante, mas nunca roubei ninguém, nunca matei ninguém — afirmou Atanásio. — Dos vários processos de homicídios que me colocaram, muitos policiais estão presos. ligados à milícia. Nunca dei arrego pra polícia — disse o traficante, alegando que sofreu extorsão de policiais.
Além dele, já foram condenados pelas mortes e tentativas de homicídios dos policiais na queda do helicóptero, os traficantes: Magno Fernando Soeiro Tatagiba de Souza, o Magno da Mangueira; Leandro Domingos Berçot, o Lacoste; e Luiz Carlos Santino da Rocha, o Playboy. Os dois primeiros foram julgados em setembro do ano passado e condenados a 193 anos de prisão, enquanto Playboy, a 225 anos, em 2019. Michel Carmo de Carvalho morreu antes de seu julgamento.
O Globo