A paz injusta de Lula
Sob as pias intenções exaladas no Vaticano, não há sinal de que Lula emendará suas posições injustas sobre a Ucrânia nem que ajudará a emendar as injustiças de ditadores companheiros
O presidente Lula da Silva reuniu-se com o papa Francisco a portas fechadas. Segundo o Vaticano, discutiram “a situação geopolítica” da América Latina e “a promoção da paz e da reconciliação, a luta contra a pobreza e as desigualdades, o respeito às populações indígenas e a proteção do meio ambiente”. Lula foi ainda mais sucinto e genérico, brindando no Twitter uma “boa conversa sobre a paz no mundo”. Não é impossível que Lula tenha dado um passo rumo a um Nobel da Paz. Se deu passos rumo à paz, é outra história.
O Brasil condena oficialmente a agressão da Rússia à Ucrânia. Mas seu chefe de Estado contraria persistentemente essa posição, borrando a linha vermelha que separa o criminoso e a vítima. Para ele, a guerra começou por um mal-entendido entre ambos e continua por má vontade de ambos. Do que se sabe de sua proposta de paz, ela envolve um cessar-fogo incondicional, com o agressor mantendo territórios e cidadãos do agredido sob seu tacão.
O papa teria feito bem em alertar Lula sobre o princípio cristão – que se coaduna com a Carta da ONU – do direito de autodefesa. “A autodefesa é não só lícita, como uma expressão de amor pela terra natal. Alguém que não defende a si, que não defende alguma coisa, não ama essa coisa. Quem a defende a ama”, disse o papa em setembro do ano passado.
Conforme a doutrina católica consolidada no Catecismo, Estados devem proteger seus cidadãos e seu território. “A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas até um grave dever para aquele que é responsável pela vida de outrem. Defender o bem comum implica colocar o agressor injusto na impossibilidade de fazer mal. É por essa razão que os detentores legítimos da autoridade têm o direito de recorrer mesmo às armas para repelir os agressores da comunidade civil confiada à sua responsabilidade”, diz o Catecismo. Não é preciso grande tirocínio para qualificar a Rússia como o “agressor injusto” de que fala essa doutrina. Logo, a resistência ucraniana é um dever cristão – e a “paz” que Lula propõe é injusta.
Mas, por mais que a posição de Lula desmoralize o Brasil, ela é inócua. Um presidente brasileiro tem poucas alavancas para interferir numa guerra na Europa. Bem diferente, no entanto, é a condição do Brasil para dirimir conflitos na América Latina. Dos bastidores diplomáticos, sabe-se que o papa pediu ajuda a Lula para barrar violações aos direitos humanos em ditaduras como a de Cuba, a da Venezuela e a da Nicarágua. A última, em especial, tem intensificado a perseguição a religiosos católicos.
Lula disse que falará com o déspota nicaraguense Daniel Ortega, frequentemente tratado pelo petista como “companheiro”. “A Igreja está com problema na Nicarágua, porque tem bispo preso. A única coisa que a Igreja quer é que a Nicarágua libere o bispo”, disse Lula, referindo-se ao bispo Rolando Álvarez, condenado a 26 anos de reclusão pela ditadura de Ortega sob a acusação de “desestabilizar” a Nicarágua.
Lula, como de hábito, deixou de condenar a implacável perseguição de Ortega aos católicos na Nicarágua, reduzindo tudo a um problema com “o bispo”. Ora, a prisão do bispo Rolando Álvarez está longe de ser a “única preocupação” da Igreja na Nicarágua. Os católicos nicaraguenses estão sendo caçados porque são a última voz a denunciar o totalitarismo socialista de Ortega.
“A única coisa necessária para o triunfo do mal”, disse Edmund Burke, “é que os bons homens não façam nada.” Lula faz isso a seu modo. Em relação às atrocidades de seus companheiros ditadores ele poderia muita coisa, mas as minimiza, e distorce o princípio da autodeterminação dos povos para lavar as mãos. Em relação ao mal na Ucrânia, não pode muito, mas o pouco que pode não faz, e finge fazer muito: fantasiando-se de “príncipe da paz”, dilui sua intenção injusta para a Ucrânia num sopão de platitudes. “Se querem a paz, parem de brigar”, sugere sem cessar, numa versão pusilânime do dito da antiga Roma: “Se querem a paz, preparem-se para a guerra”. Melhor ouvir o pontífice, não Francisco, mas Paulo VI: “Se querem a paz, trabalhem pela justiça”.
Opinião Estadão