Rosas di Maria 2
politica

Rogério Marinho: Neoindustrialização, a amnésia da “nova” matriz econômica


Atalho, voo de galinha, mais do mesmo. Estamos assistindo cenas de um filme de mau gosto. Daqueles com ingresso caro que pagamos, infelizmente, sem reclamar. Essa é a sensação que se tem ao ler o artigo assinado pelo presidente da República e seu vice em 25 de maio de 2023 .

Os autores já foram atores políticos que, no passado, encenaram discordar. Hoje, atuam juntos em um roteiro cujo final é sabidamente dramático. Para quem não decorou a sinopse, se trata tão somente de um remake sobre a fé no desenvolvimentismo a qualquer custo, nas políticas que prometem muito e entregaram pouco, na falta de avaliação de impacto e na completa ausência de resultados daqueles que se beneficiam, de forma contumaz, dos recursos públicos. Já os “vilões” da reprise são taxados de fiscalistas, entreguistas e neoliberais. Em período eleitoral, recebem o nome de “pessimildos”.

Não vale a pena ver de novo. Mas, por dever de ofício na liderança da oposição, relembro que, há apenas 10 anos, Dilma lançava o programa Inovar-Auto. O pretexto era aumentar a competitividade da indústria nacional por meio do “adensamento da cadeia produtiva”. Lá como cá, empostavam suas vozes ao anunciarem eficiência energética, veículos menos poluentes e outras não meras coincidências ao que se vê no discurso de Lula 3.

Uma coisa é dar spoiler, outra é economizar os nossos ingressos. Com essa última intenção, adianto ao espectador que tudo não passa de um velho subterfúgio, de proteção temporária da indústria nacional perante a concorrência. Basta lembrar que a referida política reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos automóveis para as montadoras que se habilitaram ao programa e ofereceram crédito tributário para o cinem… digo, para o conteúdo nacional. Isso levou o Brasil a ser condenado pela OMC (Organização Mundial do Comércio) por prática ilegal de comércio exterior.

No entanto, esse final só foi revelado em 2017. Não bastassem as infelizes cenas pós créditos, o governo também errou nas desonerações da “linha branca”, tanto no Lula 2 quanto na refilmagem em Dilma 1. Essa última, tentando inovar no enredo, lançou mão da famigerada Medida Provisória 579. No gênero tragédia, o ato remunerou as usinas apenas pela operação e manutenção dos equipamentos e não mais pelo valor da venda de energia. Um verniz de “desenvolvimento de longo prazo” para mero incentivo ao consumo. Em poucos anos depois, se viu inflação, recessão, desemprego e prejuízo de quase R$ 200 bilhões para o setor elétrico.

Esse é um governo de ideias velhas, sem diretores que detenham memória sobre os making ofs cheios de erros de montagem e direção. O próprio artigo escrito pela dupla de ex-antagonistas afirma que “a renda do trabalho teve uma queda de 2% em 2022”. Contudo, uma rápida conferida na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, nos mostra que o mesmo indicador subiu 8,3% naquele ano em relação a 2021.

Cenas inéditas foram cortadas da nova versão. Seria um conjunto de políticas horizontais, de desburocratização, com foco em resultados. Muitas delas foram lançadas a partir de 2016 e estavam previstas no roadmap de adesão à OCDE. Esse último, tal como um roteiro promissor nas mãos de um diretor imediatista, foi amassado e jogado de lado. Abriu mão, portanto, da continuidade de um processo de abertura comercial e redução sucessiva de impostos.

Em vez de nos preocuparmos em competir nos principais mercados do mundo, vamos contracenar no surrado palco Sul-Sul. Antes o risco fosse apenas esse. O pior será imaginar que, nos holofotes, estarão vedetes decadentes, outrora anunciadas como “campeãs nacionais”. Na velha trama dos jabutis, o governo inseriu a remuneração de recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), emprestados ao BNDES, pela irrisória e quase nula Taxa Referencial, em vez da TLP.

Quem assistia ao trailer jurava que haveria emoção com a luta contra subsídios, e não que os gastos tributários venceriam a luta contra o trabalhador. Ainda mais em um fundo que atende a políticas trabalhistas em um governo do partido que emula ser dos trabalhadores. No entanto, restará ao trabalhador assistir a compra de carros pela classe média ao custo da reoneração de diesel, afetando os custos de circulação de mercadorias para todos. As novas alíquotas bancarão até mesmo a farra de novas aquisições pelas ricas locadoras de veículos. Parece até que estamos fazendo vaquinha para ajudar Hollywood. Vai que estão precisando e o governo teve a ideia genial de lançar um filme de Robin Hood às avessas?

A carreta de atores canastrões no BNDES, em estatais e nos fundos de pensão ensaia uma volta triunfal. Parecem desejar, na mesma cena, um encontro entre recursos de futuros aposentados e as tais “Letras do Desenvolvimento”. Um encontro entre oferta e demanda promovida pela mão, mais do que visível, dos formuladores de políticas públicas do PT. A mistura de tragédia com terror já conta com pré-estreia anunciada para breve em um cinema perto de você. Lembra bastante aquele filme dos aposentados do Postalis que tomaram mordida em suas pensões.

Dramas à parte, o que está claro é que, pouco a pouco, os avanços institucionais que produziriam um crescimento de longo prazo estão sendo abandonados. Haverá pressão arrecadatória na já complicada reforma tributária. O final feliz, que todos gostariam de assistir, não será alcançado. Anunciar intenções de desenvolvimento asiáticas, mas repetindo todos os erros de desenho do passado, é tão somente o mesmo enredo, com os mesmos atores e falas. Tudo soa e lembra a “nova” matriz econômica. Chamar isso de “neoindustrialização” é o ápice da amnésia.

Rogério Marinho
Rogério Marinho, 59 anos, é senador pelo PL do Rio Grande do Norte e líder da oposição no Senado. Durante o governo Bolsonaro, foi secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (2019-2020) e ministro do Desenvolvimento Regional (2020-2022).

Poder 360

Gostou desta notícia?
Participe do nosso grupo no WhatsApp e fique por dentro de todas as novidades!
BLOG GUSTAVO NEGREIROS - 626x522.png 400x400px.gif 320 x 100px.png GUST_NEGREIROS_REFIS_626x522.gif GUST_NEGREIROS_626x522_CEARA.gif Banner_Iluminacao_400x400px.gif IRN-campanha-check-up-masculino-blog-do-gustavo-negreiros-mobile-400x400px.gif BANNERS-GN_317X264_ORATHORIA.gif BANNER_400X400_GUSTAVO.png 96 - FM - depois do post

5 comentários para "Rogério Marinho: Neoindustrialização, a amnésia da “nova” matriz econômica"

Deixe uma resposta para essa notícia

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

/1000.


Posts relacionados

Anuncie com a gente Documento com valores para anúncio

Mais lidas

  1. 1

    Morre o cantor Netinho

  2. 2

    Procuradora compartilha fake news sobre Flávio Bolsonaro privatizar praias

  3. 3

    As pesquisas que o PL vê como decisivas para virada ou estagnação de Lula contra Flávio

  4. 4

    Bomba: O que motivou Vini Jr e Virgínia terminarem

  5. 5

    Estátua da Liberdade da Havan é pichada em Natal e Luciano Hang oferece recompensa de R$ 10 mil

360x96 Campanha facex.png