Décadas de cultivo de meios para desvendar o DNA humano resultam agora na colheita de novas terapias e vacinas baseadas em manipulação genética para controlar as mais diversas doenças. São frutos dessa fértil lavoura, entre outros, os primeiros imunizantes para domar a Covid-19 e tratamentos inéditos capazes de levar à remissão enfermidades hereditárias raras e debilitantes.
Agora chega a vez dos medicamentos que, por meio de uma instrução direta aos genes, ensinam o organismo a se blindar de problemas extremamente prevalentes — caso do colesterol alto, condição que embute risco de vida e que acomete boa parte da população. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar um novíssimo remédio capaz de prevenir o entupimento das artérias — e, por extensão, de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais (AVC). Resumindo em poucas palavras, ele “ensina” o corpo a desligar um mecanismo que perpetua taxas elevadas de colesterol no sangue.
Criada pelo laboratório suíço Novartis, a medicação, chamada inclisirana, ataca uma das principais vias biológicas que mantêm o colesterol nas alturas com a aplicação de duas ou três injeções por ano. Para isso, faz uso dos RNAs de interferência, partículas que se intrometem no maquinário celular e alteram as ordens dadas pelo DNA para a fabricação (ou não) de proteínas. Nesse caso, a droga impede a produção de uma peça-chave para a persistência do colesterol alto — e do perigo que ele representa para o coração.
Todo o arsenal terapêutico para a doença hoje tem a missão de fazer o fígado remover o excesso de gordura em circulação. A diferença do inclisirana é que ele age direto na fonte, ou seja, nos genes. “Trata-se de um medicamento potente, que chega a reduzir os níveis de LDL, o colesterol ruim, em cerca de 50%, em média”, diz o cardiologista Raul Dias dos Santos, do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da USP. “Sua ação prolongada é outra grande vantagem em relação aos remédios atuais, que ou são tomados diariamente ou precisam ser injetados a cada quinze ou trinta dias”, acrescenta.
Nesse primeiro momento, o inclisirana recebeu sinal verde da Anvisa apenas para pacientes de alto risco cardíaco, que não conseguem controlar o colesterol com as estratégias tradicionais e já sofreram um infarto ou derrame. A tendência, porém, é que, à medida que sua eficiência se confirme, ele venha a servir a um maior número de pessoas — estima-se que 40% da população esteja com o colesterol desequilibrado (os limites são definidos de acordo com o risco cardiovascular individual). “As pesquisas precisam mostrar quão efetiva é a medicação na redução da ocorrência de infartos e outras complicações em si”, explica Santos. Esse dado permitirá determinar seu nível de proteção, inclusive em comparação com os fármacos disponíveis. Como toda nova tecnologia, o remédio da Novartis deve desembarcar por aqui com preço igualmente nas alturas. O valor está em fase de definição, mas fora do Brasil o tratamento custa o equivalente a 30 000 reais por ano.
A expansão do uso do inclisirana, em decorrência da comprovação de eficiência e maior acessibilidade, pode ajudar a contornar um dos principais desafios no tratamento do colesterol alto — a baixa fidelidade dos pacientes. “Com injeções a cada seis meses, garantimos uma maior adesão, evitando que a pessoa se esqueça ou deixe de tomar a medicação no dia a dia”, aponta a cardiologista Maria Cristina Izar, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os estudos em andamento testam o inclisirana tanto isolado quanto em combinação com a terapia-padrão, à base de estatinas, uma das classes de comprimidos mais receitadas no planeta.
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