Lula erra ao escolher novo chefe do IBGE
Economista apontado tem histórico de radicalismo e já chamou Pix de decisão ‘neocolonial’ do Banco Central
O ritmo de produção do IBGE é alucinado. Na média, são quatro anúncios por semana. Juntos, formam um retrato fidedigno do Brasil. São dados sobre inflação, desemprego, distribuição de renda, pobreza, mortalidade infantil, expectativa de vida ou produção na economia. O Censo, divulgado a cada dez anos, é o que exige mais recenseadores. Mas levantamentos permanentes também têm estrutura monumental. Os pesquisadores da Pnad Contínua visitam 210 mil domicílios em 3.500 municípios a cada três meses.
O anúncio nesta semana de que o economista Marcio Pochmann assumirá o comando do IBGE a pedido expresso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva coloca em risco a credibilidade desse trabalho conquistado em mais de oito décadas. Lula ainda fez a grosseria de passar por cima da ministra do Planejamento, Simone Tebet, que o apoiou no segundo turno da eleição de 2022.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Edmar Bacha, um dos economistas que participaram da elaboração do Plano Real e um dos ex-presidentes do IBGE, disse se sentir “ofendido” e resumiu a questão da seguinte maneira: “Pochmann é um ideólogo. Tem uma visão totalmente ideológica da economia. E não terá problema de colocar o IBGE a serviço dessa ideologia.” Bacha não está exagerando. Quando chefiou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em gestões petistas passadas, Pochmann dispensou economistas renomados somente porque não pensavam como ele e enfraqueceu a avaliação técnica em concursos.
Tentar resumir as críticas ao Fla-Flu entre economistas ortodoxos e heterodoxos é um erro. Vários expoentes dos dois campos conseguem manter um debate honesto, deixando claras as críticas de lado a lado, mas alicerçando a discussão em dados indiscutíveis da realidade. Pochmann é um caso à parte. É radical até para muitos heterodoxos. Com base na sua visão de mundo, faz previsões absurdas. A sua conta numa rede social é pródiga em disparates.
Em 2020, publicou que o Pix era mais um passo do Banco Central na “via neocolonial”. “Na sequência, vem a abertura financeira escancarada com o real digital e a sua conversibilidade ao dólar. Condição perfeita ao protetorado dos EUA”, escreveu o economista, que é professor da Unicamp. Em entrevista à agência de notícias Reuters em 2021, confundiu a tecnologia do GPS com a da internet. Antes, já tinha elaborado propostas populistas ou irresponsáveis. Em 2008, propôs uma alíquota de Imposto de Renda de 60%. Um ano antes, argumentara que uma jornada de trabalho de quatro horas, por apenas três dias, era algo factível num país em desenvolvimento como o Brasil.
Seu nome foi uma escolha infeliz para a fundação Perseu Abramo, do PT, quando a presidiu, e o Instituto Lula, que ainda comanda. Mas as suas decisões em instituições desse porte têm consequências reduzidas. O IBGE está em outra categoria. As mais variadas políticas públicas — da definição da taxa de juros à elaboração de projetos de infraestrutura — dependem de dados estatísticos confiáveis. Eventuais mudanças em metodologias ou pressão por interpretações esdrúxulas terão impactos negativos imensos.
Editorial O Globo