Racha no Mercosul desafia presidência de Lula no bloco
Concluir acordo com União Europeia será a melhor forma de apaziguar rebeldia uruguaia
O encontro de cúpula do Mercosul na Argentina, em Puerto Iguazú, resultou em racha. O Uruguai quer fazer um acordo comercial com a China e ameaça partir para uma negociação bilateral — vetada pelas regras da união aduaneira — se o resto do bloco não se mexer. A rebeldia uruguaia será o principal desafio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assume a presidência do bloco por seis meses. Pela quarta vez, o presidente do Uruguai, Lacalle Pou, se recusou a assinar o comunicado conjunto da reunião.
Não é a primeira vez que o Uruguai cria problemas para o Mercosul. Em 1990, também tentou um acordo isolado com os Estados Unidos, sem êxito. A queixa é que Brasil e Argentina, com economias mais diversificadas, evitam acordos capazes de forçá-los a se abrir à competição externa. Nesse ponto, o Uruguai tem uma boa dose de razão. Até o Acordo com a União Europeia (UE), assinado em 2019 depois de 20 anos de negociação, o Mercosul selara tratados comerciais apenas com pequenos países. Criado para conectar seus integrantes à economia global, ficou fechado em si mesmo.
Agora, a irritação uruguaia cresceu diante das dificuldades para finalizar o acordo com os europeus. Numa manobra de que já devem ter se arrependido, Lula e o presidente argentino, Alberto Fernández, aproveitaram a pressão dos ambientalistas europeus para tentar rever itens do acordo fechado na gestão Jair Bolsonaro. A forma atabalhoada como Lula retomou os contatos com a UE resultou numa carta dos europeus com “instrumentos adicionais” para impedir a importação de produtos de áreas desmatadas depois de 2020.
Nada que a diplomacia não pudesse contornar, já que combater o desmatamento também é interesse do Brasil. Lula, porém, depois de classificar como “ameaças” a intenção da UE, prometeu uma resposta à altura. Deveria, em vez de escalar a disputa em público, ter entregado o caso ao Itamaraty e investido seu tempo, com Argentina, Paraguai e Uruguai, para que o acordo entre em vigor quanto antes. Não se pode mais adiar, depois de passadas mais de duas décadas de negociações.
Não faz sentido reabrir um acordo já assinado para rediscutir a participação de empresas europeias nas compras governamentais do Brasil. O governo pretende manter essa anacrônica reserva de mercado sem aproveitar o tratado com a UE para injetar mais competição no mercado interno e ganhar produtividade.
Outra atitude contraproducente de Lula tem sido a insistência em reintegrar ao Mercosul a Venezuela, afastada por não cumprir a cláusula democrática. Depois de receber o ditador Nicolás Maduro em Brasília com honras de chefe de Estado, Lula não obteve nenhum aceno positivo de Uruguai ou Paraguai em favor da Venezuela chavista. Seu plano soou ainda mais absurdo quando, às vésperas da cúpula de Puerto Iguazú, o regime chavista impugnou a candidatura da principal adversária de Maduro nas eleições.
Claro que o Uruguai precisará ser criticado se partir para a negociação com os chineses à revelia do Mercosul. Mas motivos não faltam. Nos seis meses de presidência do Mercosul, o melhor que Lula pode fazer é afastar suas inclinações ideológicas e concluir os entendimentos com a UE. Será bom para as economias do bloco e, de quebra, trará o melhor argumento para apaziguar as pretensões rebeldes do Uruguai.
O Globo