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William Waack: Lula até fala grosso, mas ativismo internacional do governo carece de planos de ação

Lula até fala grosso, mas ativismo internacional do governo carece de planos de ação

Presidente esbraveja contra UE, EUA e ONU, além de passar pano para ditaduras; faltam ao petista propostas claras

Lula decidiu sair ao mundo esbravejando. Não se sabe se ele está satisfeito com a própria performance, mas até aqui a tática aguarda melhores resultados.

O presidente brasileiro esbravejou contra potências ocidentais que estariam mais interessadas em prolongar do que terminar a guerra da Ucrânia. Colheu como resposta uma sucessão de refutações em público por parte de dirigentes dessa aliança (e de variadas correntes políticas) – e severas críticas de relevantes órgãos de imprensa nos dois lados do Atlântico.

Esbravejou contra a “inoperância” da ONU e a composição do seu Conselho de Segurança, pleiteando uma “governança global” que nunca existiu, além de um lugar nesse mesmo conselho do qual o Brasil continua distante como sempre.

Esbravejou contra o FMI e o dólar prometendo quebrar um galho para seu amigo o presidente da falida Argentina, mas é com o Fundo que o governo argentino está se acertando para obter um refresco no pagamento de parcelas da dívida.

As mais recentes diatribes têm como alvo a União Europeia, com a qual os sócios do Mercosul negociam um acordo amplo há 25 anos. Muito do que os europeus tentam impor é protecionismo mal disfarçado, o que não constitui a menor novidade. Mas a dúvida que está no ar é se Lula quer mesmo concluir as negociações, ou se as declara mortas por culpa do outro lado.

As últimas perorações do presidente brasileiro sobre integração regional e atuação conjunta em negociações multilaterais foram contempladas pelo colega presidente do vizinho Uruguai com uma severa crítica ao “imobilismo” e incapacidade de ação do bloco que Lula passou a presidir nesta semana, o Mercosul. E com a recusa em assinar um comunicado conjunto.

Boa parte do voluntarismo com que o presidente brasileiro se atirou na arena internacional carece de um plano bem desenhado. É o caso dos esforços para se apresentar como mediador da paz na guerra da Ucrânia, mas também para retomar o tradicional papel brasileiro de “líder” da América do Sul, severamente prejudicado no momento por passar o pano em ditaduras, com destaque para a Venezuela.

A existência de uma clara estratégia será testada em breve na questão do clima, devido não só a uma série de eventos internacionais nos quais se antecipa que o Brasil ocupará um lugar de destaque. Diplomatas experientes assinalam que ainda se aguarda, por parte do Brasil, propostas para cumprir os compromissos para redução de gases do efeito estufa e a regulamentação do tão falado mercado de carbono.

Diante disso, esbravejar é pouco.

William Waack - Estadão

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