Lula fracassou na Cúpula da Amazônia como fez na Cúpula Sul-Americana; leia a análise
Comunicado final não inclui metas de redução do desmatamento nem uma posição sobre a exploração de petróleo
A Cúpula da Amazônia expôs as divergências dos países da região. Exatamente como a Cúpula Sul-Americana de maio. O comunicado final não inclui metas de redução do desmatamento nem uma posição comum sobre a exploração de petróleo — os dois fundamentos das mudanças climáticas. As razões do fracasso foram as mesmas nas duas cúpulas.
A liderança de um país se sustenta em quatro pilares: projeção territorial, econômica, tecnológica e militar; cenário estratégico; posições políticas; exercício da diplomacia. As vantagens oferecidas pelos dois primeiros são neutralizadas pela má condução dos dois últimos.
A projeção do Brasil no contexto sul-americano está dada por razões geográficas e econômicas.
Ao menos sete fatores favorecem o cenário estratégico: o papel-chave da Amazônia na regulação do clima; as demandas por energia renovável, alimentos e minérios estratégicos; a disputa entre as democracias ocidentais e o eixo das autocracias encabeçado por China e Rússia; o interesse americano e europeu no deslocamento das cadeias de valor para redução da dependência chinesa; a disputa entre Estados Unidos e Europa por mercados e fornecedores.
O Brasil chegou à Cúpula da Amazônia com credenciais robustas. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um ativo de credibilidade, registrou redução de 34% do desmatamento no primeiro semestre, de 41% em junho e de 66% em julho. Combinado com a queda de 82% do desmatamento entre 2004 e 2012, graças a um programa lançado pelos mesmos atores — Lula e Marina Silva — esses números dão autoridade moral ao Brasil.
O apoio de Lula às prospecções de petróleo na Costa da Amazônia lança uma sombra sobre esse ativo. Qualquer governo que apoie novos projetos de exploração de petróleo é alvo de censura. Pergunte ao primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak. Ao lado do carvão, o petróleo é o grande responsável pelo aquecimento global. Num bioma delicado e crucial como a Amazônia, a proposta causa pânico.
Lula também chegou à Cúpula Sul-Americana com credenciais impecáveis: as instituições brasileiras acabam de vencer o maior desafio à democracia desde o golpe de 1964, com as tentativas de Jair Bolsonaro de se manter no poder apesar da derrota eleitoral.
Lula queimou esse capital político, ao apoiar a ditadura venezuelana e tergiversar sobre as violações de direitos humanos na Nicarágua. Seus instintos protecionistas alienaram o Uruguai, e correm o mesmo risco com a Argentina, se os peronistas perderem as eleições de outubro.
Por último, Lula inverteu a ordem natural da diplomacia, ao convocar essas cúpulas sem a realização prévia de reuniões, primeiro no nível de técnicos, depois de secretários, passando a ministros, culminando com os presidentes, para a construção de convergências. Liderança não se impõe; conquista-se, com trabalho árduo.
Lourival Sant'Anna - Estadão