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Editorial O Globo: Governo e PT erram ao tentar politizar apagão

Governo e PT erram ao tentar politizar apagão

Ao longo da terça-feira, quando o país viveu o maior apagão desde 2009, as narrativas prevaleceram sobre os fatos. Uma questão de fundo técnico foi imediatamente politizada. A primeira-dama Janja da Silva publicou, antes de qualquer análise ou diagnóstico das causas, mensagem numa rede social pondo a culpa na privatização da Eletrobras. Líderes petistas seguiram o mesmo caminho. Até o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pôs a empresa na berlinda, embora tenha dito ser “leviano” apontar relação de causa e efeito entre o apagão e a privatização.

A politização abriu caminho ainda a críticas às fontes alternativas de eletricidade. Mesmo que o apagão possa ter tido origem na sobrecarga de uma usina eólica e que a energia tenha demorado mais a voltar nos estados que dependem da geração por vento ou solar, a falha técnica, rara, não é pretexto para a adoção de fontes de energia mais poluentes. O problema não está ligado às usinas em si, mas à gestão do sistema. Apenas uma apuração consistente das causas será capaz de apontar o que precisa ser corrigido para evitar episódios semelhantes.

Silveira anunciou ter pedido à Polícia Federal e à Abin abertura de investigações sobre suspeitas de sabotagem. É verdade que, depois dos ataques golpistas do 8 de Janeiro, foram registrados atentados a torres elétricas, mas por enquanto não há indício de nada do tipo. De acordo com informações preliminares, o sistema foi atingido por duas falhas simultâneas em linhas de transmissão.

Uma ocorreu no Ceará, numa linha da Chesf, subsidiária da Eletrobras, devido à sobrecarga num momento em que a geração dependia mais de usinas eólicas e solares — segundo Silveira, o evento foi de pequena magnitude e não seria capaz, sozinho, de causar o apagão. A segunda, possivelmente na subestação de Xingu, que recebe energia da hidrelétrica de Belo Monte. As panes provocaram efeito cascata. O Esquema Regional de Alívio de Carga (Erac), usado como proteção, cortou o fornecimento para evitar sobrecarga e maiores danos aos equipamentos.

O apagão afetou, em maior ou menor escala, 26 das 27 unidades da Federação (apenas Roraima, desconectada da rede nacional, não foi atingido). Quase 15% da população — 29 milhões — ficaram sem luz nalgum momento entre 8h31 e 14h49, quando a energia foi restabelecida por completo. Até agora, não há explicação convincente. “Não é normal levar esse tempo todo para dar uma explicação”, afirma Edvaldo Santana, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “O Operador Nacional do Sistema (ONS) sabe em tempo real onde ocorreu a falha. Chamou a atenção na entrevista do ministro não haver ninguém do ONS.”

Enquanto a oposição aproveita o apagão para criticar a gestão do setor elétrico pelo governo, o Planalto minimiza o episódio. Em contraste com outros apagões, os reservatórios hoje estão cheios, existe oferta de energia e não há excesso de demanda. Mas fatos raros acontecem. Por isso mesmo, o governo tem obrigação de explicar o que aconteceu, por que aconteceu e dizer o que fará para evitar que se repita. Não dá para politizar uma questão essencialmente técnica nem tratar problema de tamanha gravidade de forma tão rasteira.

Editorial O Globo

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