Governo não deve ceder à chantagem promovida pelo MST com invasões
Onda de novas ocupações mostra que movimento só está interessado na própria sobrevivência
As invasões promovidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nos últimos dias, que atingiram até uma área da Embrapa em Pernambuco, provocaram o barulho que os militantes pretendiam. Como resposta, integrantes da CPI instaurada no Congresso para investigar as ações do MST convocaram o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e planejam chamar outros nomes do Executivo. Usando a tática recorrente das ocupações, o MST tenta conquistar mais espaço na pauta do Congresso e no governo. As autoridades não deveriam ceder a esse tipo de chantagem. Invasões têm de ser tratadas como o que são: atos ilegais que precisam ser enfrentados.
Mesmo repaginada recentemente, a visão do MST sobre o campo continua a ser idílica. A idealização de um meio rural cheio de pequenas propriedades cultivando produtos orgânicos não passa de sonho. Ainda que o Brasil tivesse dinheiro para gastar nesse tipo de fantasia, seria descabido, além de impraticável, transformar a paisagem rural brasileira num momento da História em que o agronegócio — principal adversário do MST — funciona como motor do crescimento econômico, gerando aumento do emprego e da renda nas áreas onde está presente.
Com a nova onda de invasões, o movimento mostra que está apenas interessado em investir na própria sobrevivência, uma vez que o número de acampados tem caído. A estratégia é obter concessões de uma administração mais simpática à causa. O governo deveria condenar com mais veemência a quebra da lei, que eleva a insegurança do agronegócio.
Isso não significa esquecer de buscar novas soluções para diminuir a pobreza e a desigualdade no campo. De 1979 a 2018, 1,3 milhão de famílias foram assentadas, segundo dados do Incra. Bandeira histórica da esquerda, os assentamentos também foram considerados por economistas liberais, entre eles John Williamson, como ferramenta para melhorar a distribuição de renda. Causa espanto que pouco se discuta se a reforma agrária das últimas quatro décadas entregou os benefícios esperados.
Pesquisas mostram que a desigualdade no campo não caiu com os assentamentos. Há histórias de sucesso, principalmente quando as pequenas propriedades fazem parte de uma cadeia produtiva estabelecida, como a de aves e porcos no Sul. Para os demais, a vida continua difícil. Sem que o governo faça análises prévias de viabilidade econômica, muitos acabam conseguindo a terra sonhada, mas continuam carentes de capacidade, apoio técnico e capital.
Uma das lições das últimas quatro décadas é que o país precisa repensar a política de reforma agrária, justamente o contrário do que pretende o MST. O Brasil poderia aproveitar este momento para passar a limpo essa política e avaliar seus acertos e erros.
Editorial - O Globo