O ‘calote petista’
Se nem o PT convence a elite de seus filiados a doar para o partido, que dirá siglas mais distantes dos eleitores
Este jornal noticiou há poucos dias que alguns ministros petistas do governo Lula da Silva não têm pagado a contribuição mensal que é exigida pelo PT dos filiados que exercem mandatos ou ocupam cargos de confiança. A relação de devedores inclui os ministros da Casa Civil, Rui Costa; da Educação, Camilo Santana; da Fazenda, Fernando Haddad; e do Trabalho, Luiz Marinho. Nos casos de Haddad e Marinho, o PT informou que a exigência, prevista em estatuto, está suspensa até que seja recalculado o valor da contribuição devida por cada um.
A bem da verdade, pouco importa para o País o cadastro de inadimplentes do PT ou de qualquer partido político. Entretanto, o caso petista é digno de nota por ser paradigmático da falta de cultura de doação privada às legendas, uma subversão da democracia representativa que tanto mal faz ao Brasil.
Inegavelmente, o PT é um dos mais bem organizados partidos do País. Tem presença nacional, uma agenda programática que, a despeito das críticas que possam ser feitas, confere identidade à legenda, um bom número de filiados – cerca de 1,6 milhão, atrás apenas do MDB, com 2,07 milhões, de acordo com o TSE (julho de 2023) – e reconhecida capacidade de mobilização. Pois se nem um partido com esses atributos consegue convencer a elite de seus filiados a contribuir para a manutenção financeira de suas atividades, que dirá legendas menos estruturadas e ainda mais distantes dos eleitores.
Há muitos fatores que explicam o afastamento entre eleitores e partidos no Brasil. Um dos principais é o conforto dos caciques partidários, que recebem múltiplos estímulos para ignorar os eleitores e só lembrar de sua existência em anos eleitorais. Nos demais, não movem um dedo pela aproximação, acostumados que estão a ver dinheiro público jorrar no caixa das legendas sem esforço algum, todo santo mês, graças aos bilionários recursos que abastecem os fundos partidário e eleitoral.
Nem a sra. Rosângela da Silva, tida como militante histórica do PT, tem feito as contribuições mensais à legenda. Evidentemente, por não exercer mandato eletivo nem ocupar cargo público, a primeira-dama não tem obrigação estatutária de contribuir para cobrir os custos mensais do partido. Mas, sendo ela quem é, que mensagem transmite aos demais apoiadores do PT? Há uma dimensão simbólica que não pode ser simplesmente ignorada.
É importante registrar que, entre todos os partidos com representação no Congresso, o PT é, de longe, o que mais recebe doações privadas. Em 2022, R$ 27,9 milhões entraram nas contas da legenda via contribuições de pessoas físicas. Entretanto, esse valor não chega a 5% do que o PT recebeu, no mesmo período, em recursos dos fundos partidário e eleitoral (R$ 603,6 milhões).
Ou seja, enquanto o funcionamento de organizações privadas como os partidos estiver assegurado pelo aporte líquido e certo de recursos públicos dessa monta, não haverá qualquer estímulo à conquista de doadores privados. E assim o amadurecimento da democracia representativa permanecerá sobrestado no Brasil.
Editorial Estadão