Nenhum eleitor pode esperar que governantes sejam imunes ao erro. Mas pode — e deve — exigir que aprendam para não repeti-los. Por isso causou espanto o discurso em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou investimentos bilionários na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O anúncio, além de um contrassenso, é prova de que o PT pouco aprendeu com seu passado.
A ideia da refinaria surgiu no primeiro governo Lula. O projeto contava com a participação da estatal venezuelana PDVSA, mas as promessas do caudilho Hugo Chávez nunca se materializaram. Anunciado em 2005, o orçamento inicial foi estimado em US$ 2,3 bilhões. Em 2014, quando apenas uma das duas unidades previstas entrou em operação, os gastos acumulavam quase US$ 20 bilhões. Como foi documentado por confissões, depoimentos e documentos recolhidos pela Operação Lava-Jato, parte considerável do dinheiro foi simplesmente roubada.
Mesmo que a governança seja agora reforçada a ponto de evitar mais corrupção, a decisão de investir US$ 8 bilhões para ampliar a produção de diesel concluindo a segunda unidade de Abreu e Lima não para de pé. É verdade que o Brasil importa o combustível. Também é certo que o refino vive momento favorável, e as obras estão pela metade. Mas nada disso sustenta a viabilidade econômica do investimento.
Primeiro, porque o desperdício da Petrobras em projetos faraônicos de refino tem sido crônico — um estudo verificou que as gestões petistas gastaram mais que o quádruplo de tudo o que foi investido no setor ao longo da história da empresa, para aumentar a capacidade de produção em apenas 20%. Segundo, a forma mais razoável de ampliar o refino seria abrir espaço ao capital privado. O plano de privatizar refinarias, abandonado desde a posse de Lula, deveria ser retomado para trazer fôlego à Petrobras e aumentar a competição no mercado de combustíveis, onde os preços são ainda ditados pela empresa. Por fim, não é sensato despejar bilhões em negócios ligados a combustíveis fósseis num momento em que as petrolíferas do planeta priorizam a transição energética à economia de baixo carbono.
Mesmo com tantas evidências contrárias, o governo parece inabalável em sua crença no Estado como indutor do crescimento. Outro sinal disso é o plano de ampliar o GasLub (antigo Comperj), em Itaboraí (RJ), para erguer uma unidade de produção de diesel renovável e uma petroquímica. Lançado no primeiro governo Lula, o polo foi também foco de corrupção e, até o momento, só dragou dinheiro.
A crença de Lula na fábula do investimento estatal salvador não é a única a causar espanto. Em seu discurso, ele voltou a acusar o governo americano de ter atuado contra a Petrobras e classificou a Lava-Jato como um complô. “Tudo o que aconteceu neste país foi uma mancomunação entre alguns juízes e procuradores, subordinados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que nunca aceitaram o Brasil ter uma empresa como a Petrobras”, disse. Tais acusações, apresentadas sem nenhuma prova, não resistem à realidade dos fatos.
E em nada mudam o essencial: as decisões de investimento da Petrobras nos governos do PT geraram o maior endividamento do mundo, obras caras, inacabadas e o maior escândalo de corrupção da História do Brasil. Passou da hora de reconhecer os próprios erros.
Editorial O Globo