Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Se trocarmos pão por voto, o ditado ajuda a entender a crise instalada no PT.
Faltou voto para o Partido dos Trabalhadores nas eleições municipais. A sigla do presidente Lula elegeu apenas 252 prefeitos num país com mais de 5 mil municípios.
Sua única vitória em capitais foi em Fortaleza. Mesmo assim, foi no olho mecânico. Evandro Leitão se elegeu por apenas 10 mil votos.
Na segunda-feira, o ministro Alexandre Padilha disse que o PT terminou mais uma eleição municipal no Z-4. Ou seja, na zona de rebaixamento.
Foi uma avaliação realista, porque o partido avançou um pouco em relação a 2020, mas ficou em nono lugar no ranking de prefeituras.
A declaração irritou a presidente do PT, Gleisi Hoffman. Ela acusou Padilha de ofender o partido e disse que ele deveria se ocupar da articulação política do governo.
A deputada repreendeu o ministro nas redes sociais, transformando a lavagem de roupa suja em manchete de jornal.
A reunião da executiva do PT, na tarde de segunda-feira, foi marcada por outros lances de bate-boca.
O deputado Jilmar Tatto disse que o partido errou em São Paulo ao apoiar Guilherme Boulos, do PSOL. O deputado Carlos Zarattini respondeu que a esquerda não tinha nome melhor na cidade.
Zarattini lembrou que em 2020 o PT insistiu na candidatura própria e acabou num humilhante sexto lugar. Não precisou dizer que o candidato era o próprio Tatto.
O clima pesado não deve se dissipar tão cedo. Dirigentes petistas já começaram a medir forças para influir na sucessão de Gleisi, que deixará a presidência da sigla no ano que vem.
Outro fator de tensão é a aguardada reforma ministerial. Quem está no governo, como Padilha, não quer sair. E quem está fora, como Gleisi, quer entrar.
Bernardo Mello Franco - O Globo