Risco de inflação com crescimento pífio pela frente
Mesmo após ruína produzida por Dilma, petista ainda alimenta ilusão de que pode ampliar gastos sem sofrer consequências
A persistente alta da inflação, mesmo diante de juros escorchantes, é sinal claro de que a política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é insustentável e precisa de ajuste urgente.
É inescapável encarar um ajuste do Orçamento federal, esforço que vem sendo publicamente conduzido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, até agora sem sucesso devido à resistência de Lula e seu partido, que continuam presos ao populismo e à crença pueril de que o gasto público é o caminho da prosperidade —e da popularidade.
Espanta que a esta altura, em seu terceiro mandato no Planalto, o presidente da República, que viveu sob inflação alta e testemunhou o enorme dano que ela causa sobretudo aos mais pobres, ainda sustente tais ilusões. Nem mesmo a ruína social produzida pela correligionária Dilma Rousseff parece ter deixado lições.
Os repetidos adiamentos do prometido pacote de controle das despesas obrigatórias, sem o qual a regra fiscal criada pelo próprio governo petista não se sustentará, não autorizam otimismo. Enquanto o mandatário não se decide, a realidade vai se impondo e acabará decidindo por ele, não sem danos para o país.
A última leitura do IPCA, relativa a outubro, mostra alta da inflação acumulada em 12 meses para 4,76% —acima do intervalo de 1,5 ponto percentual ao redor da meta oficial de 3%. Na trajetória atual, o índice de preços pode fechar o ano acima de 5%.
As tendências econômicas são preocupantes. O dólar em alta eleva os preços de matérias-primas, inclusive alimentos, que subiram 6,65% nos 12 meses até outubro. Também se agrava a carestia de caráter mais persistente, como no setor de serviços, que em certas medições já sobe em taxa entre 5% e 6% ao ano.
Além de choques conjunturais, a pressão maior sobre os preços é umbilicalmente ligada ao excesso de gastos do governo, que impulsiona a demanda além da capacidade produtiva e fragiliza as contas do Tesouro Nacional.
A desconfiança quanto à trajetória da dívida pública desvaloriza o real e eleva os juros. Na quarta-feira (6) o Comitê de Política Monetária subiu a taxa Selic em 0,5 ponto percentual para 11,25% ao ano, e as projeções de mercado apontam para um pico superior a 13% nos próximos meses.
Não tardará para que o arrocho monetário forçado pela imprevidência do governo asfixie empresas e famílias. O pior cenário é novamente o país ser aprisionado na nefasta combinação de inflação e recessão.
A agenda petista até aqui se resumiu a elevar impostos —em alguns casos corretamente, como na cobrança sobre os mais ricos e o fechamento das brechas que levam a abusos de planejamento tributário por empresas.
Não é mais possível persistir apenas nesse rumo. Se Lula não aceitar um programa crível de controle de gastos, vislumbra-se deterioração econômica continuada no restante de sua gestão.
Editorial Folha de São Paulo