A comunicadora Cacá Filippini, de 45 anos, define grande parte de suas viagens em função das corridas de rua. Escolhe a prova que quer fazer e, depois, as extensões da viagem. O inverso também acontece: fecha destinos-alvo e depois encaixa eventos esportivos pelo caminho no roteiro.
Ela já decidiu que, em março do ano que vem, correrá a Meia Maratona de Lisboa, em Portugal, e a Maratona de Barcelona. Depois, fará uma viagem pela Espanha. Segundo ela, correr em cidades icônicas é o combo perfeito: a união entre esporte e turismo.
— Eu faço maraturismo — conta Cacá, formada em Direito e criadora de conteúdo sobre viagem e corrida. — A corrida é prioridade, mas também faço o mesmo com mergulho, por exemplo. Vamos conhecer Revillagigedo, no México, em janeiro, após ficar embarcados. Gosto de encaixar esporte em todas as viagens possíveis.
Em setembro, Cacá correu a Maratona de Berlim, na Alemanha, e aproveitou para perambular por Bruxelas (Bélgica), Praga (República Tcheca), Budapeste (Hungria), Viena (Áustria) e ainda Nova York (Estados Unidos). A viagem — uma espécie de nova lua de mel — teve renovação dos votos em plena maratona.
No quilômetro 35 da prova de Berlim, Cacá e o marido, Antônio Dib Cardeal, administrador de empresas de 51 anos, relembraram o primeiro pedido feito por ele naquele local, em 2019.
À época, Cacá o acompanhava na Maratona de Berlim como suporte. Estava a postos no quilômetro 35 apenas para lhe entregar um energético. Mas, no instante em que passou a garrafa, ela recebeu uma folha de papel com um pedido de casamento por escrito. Cacá guarda o bilhete até hoje.
— Prometemos que um dia correríamos juntos em Berlim. Essa corrida é especial. Também foi nessa maratona de 2019 que decidi tirar do papel um sonho antigo de correr a Maratona de Nova York — recorda.
Rodar o Brasil
Por causa da pandemia de Covid-19, Cacá adiou o plano para 2022. Completou a Maratona de NY após uma batalha de 219 dias contra o vírus e sequelas. Entre idas e vindas ao hospital, foi internada na UTI com trombose e problemas respiratórios.
— Me lembro de cada quilômetro, de cada pessoa que conheci. Me diverti no percurso inteiro. Larguei como se estivesse indo ao encontro da mulher que me tornei. Com a pessoa feliz e realizada que sou por causa de tudo o que vivi. As dores foram facilmente gerenciadas. Cruzei a linha de chegada sorrindo, depois de 4h40 — desabafa Cacá, ao refletir sobre a perda do primeiro marido, em um acidente de carro, quando estava grávida de oito meses, e sobre ter sido abandonada, dez anos mais tarde, por seu segundo companheiro, quando o filho deles nasceu com graves problemas de saúde.
Ontem pela manhã, Cacá, que já completou as maratonas de Nova York, Berlim, Chicago (EUA) e Paris (França), cruzou a linha de chegada de mais uma corrida de rua. Desta vez, na Bahia. Ela participou do Bota Pra Correr, evento da Olympikus, em Itacaré.
—Tenho o sonho de correr em todas as capitais do Brasil — diz a comunicadora. — O Bota Pra Correr nos leva a lugares inusitados.
E a proposta do evento é justamente essa. Ele já passou por Jalapão (TO), Pantanal, Alter do Chão (PA), Chapada dos Veadeiros (GO) e São Miguel dos Milagres (AL). Em 2025, estará na Serra do Cipó (MG), em março, e em Cumbuco (CE), em novembro. As inscrições são on-line, através do site olympikus.com.br.
— Se essa marca tem um desejo ao comemorar seus 50 anos, é correr com os brasileiros — afirma Márcio Callage, diretor de marketing da Vulcabras, empresa que gerencia a Olympikus.
Segundo Callage, a marca apoiará 50 corridas entre março de 2025 e 2026, incluindo a Maratona de Salvador (BA) e as de Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP).
Pacotes especiais
Esse casamento entre turismo e corridas é uma tendência mundial. De acordo com dados da Strava, principal comunidade digital para pessoas ativas, com mais de 18,5 milhões de usuários apenas no Brasil, o ano de 2023 registrou o recorde de atividades durante viagens.
O país esteve no roteiro de muita gente: a Maratona do Rio de Janeiro ficou entre as três mais gravadas por atletas no mundo todo, atrás apenas de Berlim e Paris.
De olho nesse filão, agências de turismo já oferecem pacotes que incluem inscrição, estadia em hotéis próximos ao ponto de largada e orientação aos viajantes.
— Especialmente após a pandemia, as pessoas estão correndo como se não houvesse amanhã — garante Elisabet Olival, diretora da Kamel Turismo, agência especializada em pacotes para corredores que participam de provas internacionais e que também atende quem quer vir ao país para correr.
No início deste mês, a empresa levou mais de 400 brasileiros para a Maratona de Nova York. E, segundo Elisabet, cerca de 70% dos grupos optam por permanecer mais tempo no destino.
— Ficam, em média, mais três noites na cidade da prova ou em uma cidade próxima. E geralmente depois da corrida, porque não querem se cansar antes do grande dia e também por causa dos eventos prévios de confraternização — explica Elisabet, que fundou a Kamel em 1988 e usa o slogan "Viajo porque corro”. — A decisão de correr uma prova acontece em função da capacidade do atleta e sua meta. Depois, o corredor pensa no resto.
Cerveja, vinho e até pizza nas provas ‘alternativas’
Para além do turismo, as corridas de rua passaram a ser associadas a outras formas de lazer, como experiências gastronômicas e de degustação de bebidas.
Três cidades gaúchas — Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul — sediarão a sétima edição da Maratona do Vinho, que ocorrerá em fevereiro, época da colheita de uvas. Nessa prova, une-se esporte à bebida.
Durante o percurso, há áreas de reabastecimento com produtos da região: uva, suco, vinho, pão, queijo, salame, entre outros, ao som de músicas típicas.
No caso do Circuito dos Cervejeiros, a corrida fica em segundo plano. A ideia é mesmo beber entre os amigos. Geralmente, o percurso tem cerca de 5 km, com paradas estratégicas para degustação de cervejas. As duas últimas etapas aconteceram no Rio de Janeiro, em Ilha Grande e Penedo. E as próximas corridas serão no interior do estado: em Cabo Frio (30 de novembro) e Petrópolis (8 de dezembro).
Também no próximo dia 30 acontecerá a Run & Pizza, corrida de 5 km casada com um “open bar” de pizza. A ideia, segundo a Fila, organizadora do evento, é levar os corredores às ruas do bairro paulista de Pinheiros sem preocupação com a performance. Não haverá cronometragem, e o kit inclui uma pochete de LED.
— Na Fila, a transversalidade entre lifestyle e corrida é fundamental. Além disso, valorizamos não apenas a performance, mas a conexão com os corredores — diz Adriana Magalhães, diretora de marketing da Fila Brasil. — Queremos que o Run & Pizza seja uma celebração.
Participarão cerca de 300 corredores, que poderão consumir 113 pizzas de sabores diversos, entre margherita, caprese com azeite trufado e opções doces (banana ou brigadeiro).
O Globo