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Internação de Lula surpreende PT e deixa governistas sem rumo
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Internação de Lula surpreende PT e deixa governistas sem rumo

Lula está na terceira emergência médica em seis semanas. Deixou em aberto o cenário político, com múltiplas dúvidas sobre o rumo do governo em 2025 e a eleição presidencial no ano seguinte.

É notável que a sua ausência do Palácio do Planalto, supostamente temporária, tenha levado o governo à semiparalisia. Ministros se limitaram à gerência, adiando decisões relevantes até a volta de quem decide.

O Congresso reconheceu tacitamente o vácuo de poder no governo, sem autoridade central identificável. Deixou isso claro para Fernando Haddad, ministro da Fazenda, enredado na inflação dos alimentos, no dólar em alta e nas contas que não fecham: se é urgente, melhor esperar o retorno de Lula.

O Partido dos Trabalhadores se mostrou surpreendido. No fim de semana a cúpula petista havia divulgado um manifesto eleitoral demarcando a candidatura em 2026 como fato consumado: “Como candidato à reeleição, Lula, nossa maior expressão, deve recalibrar toda sua sabedoria e liderança para o mundo digital, sintonizando-as novamente para absorver anseios, frustrações e mudanças pelos quais atravessa nossa juventude”.

Sugeriu o exorcismo de preconceito etário pela conversão da idade numa exaltação da vivência política como trunfo de campanha — ele estará com 81 anos em outubro de 2026, quase metade desse tempo de vida no ofício de candidato permanente do PT à Presidência da República. E fez, com elegância, uma ressalva sobre a necessidade de Lula renovar ideias: “A sincronia entre a experiência política e as novas dinâmicas sociais será crucial para reacender a chama do engajamento popular e fortalecer os laços entre o partido e as novas gerações”. Horas depois, a notícia da primeira cirurgia emergencial induziu o partido a uma atmosfera esterilizante, com parlamentares vagando no Congresso sem bússola e sem rumo.

Campanha presidencial com Lula é uma coisa. Sem ele, outra. É candidato “fortíssimo”, na definição de Arthur Lira, presidente da Câmara, e enfrentá-lo “é muito difícil”, reconhece Gilberto Kassab, presidente do PSD, cuja eficiência eleitoral foi demonstrada nos embates de outubro pelas prefeituras (ganhou 891).

“PT se choca com futuro sem Lula e ministros esperam a volta de quem decide”

Nada indica, por enquanto, que Lula esteja ou vá ficar limitado para governar ou disputar a reeleição. Porém, dúvidas sobre a sua saúde e disposição mental para a sétima campanha presidencial existem e se multiplicam no PT, no governo e no Congresso. Derivam do “fator Joe Biden” na recente campanha americana e, em parte, têm sido estimuladas pelo próprio Lula, que atravessou os últimos três anos repetindo ser um quase octogenário “com energia de 30 e tesão de um garoto de 20 anos”.

O ceticismo já custa caro ao Planalto, como se vê nas manifestações do Congresso sobre o pacto fiscal e a reforma tributária, e tende a condicionar o restante do mandato. Ficou mais difícil para Lula controlar seu projeto de reeleição ou de sucessão sem o risco de que se difunda a ideia de vencimento do prazo de validade do terceiro governo. Por ironia da história, é situação parecida com a do período 2001-2002, quando batalhou para desidratar o final do ciclo Fernando Henrique Cardoso no Planalto.

Aumentou o sarrafo da incerteza para 2026, constata Antonio Lavareda, do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe). Isso porque a candidatura de Lula é enigma e a de Jair Bolsonaro é inviável — ele está fora do páreo pelos próximos oito anos por sentença judicial.

É notável que ambos tenham atravessado três décadas na política como lobos solitários, egocêntricos, metade do tempo olhando para o passado, outra metade obcecados pelo presente, esquecidos do futuro, sem se preocupar com a sucessão. Lula se impôs como plano A, B e C do Partido dos Trabalhadores. Já Bolsonaro sempre fez questão de se apresentar como única alternativa a ele mesmo nas urnas e nas conspirações golpistas que o deixaram inelegível.

A possibilidade de um cenário aberto para a disputa presidencial difunde apreensão em todos os partidos, que desde a eleição municipal rascunhavam a próxima etapa de seus projetos de poder. Para o PT, especialmente, a eventual ausência do candidato único e permanente contém o risco de fragmentação por divergências quanto ao substituto hoje mais evidente no partido, Fernando Haddad, e restrições a aliados como o vice-presidente Geraldo Alckmin. Viciados na “lulodependência”, os petistas tendem a ficar imobilizados, à espera do futuro. Quando voltar, Lula decide.

José Casado - VEJA

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