Erros que permitiram fuga de Mossoró servem de alerta para as autoridades
PRESOS ESTAVAM EM LOCAL INADEQUADO, MONITORAMENTO FALHOU E RESPOSTA FOI LENTA
As informações que vieram a público até agora sobre a fuga de dois chefões do tráfico da Penitenciária Federal de Mossoró (RN) não se encaixam no manual de uma unidade de segurança máxima e põem em xeque a credibilidade dos presídios federais. A fuga, ocorrida por volta das 3h30 da última quarta-feira, expôs falhas que não poderiam ter acontecido.
A hipótese de facilitação ainda está sob investigação, mas, independentemente da conclusão, o que já foi divulgado deveria servir de alerta para as autoridades. Os presos fizeram buracos na parede das celas simultaneamente (estavam em espaços separados), arrancaram a fiação e acessaram um terraço usado para banhos de sol, que armazenava material de construção e ferramentas. Suspeita-se que tenham tirado dali o objeto cortante usado para romper o alambrado e ir embora. Não se sabe por que não estavam em celas habituais, menos vulneráveis.
A fuga poderia ter sido detectada, pois o ambiente é quase todo monitorado. Não há câmeras nas celas, mas há em corredores e pátios. Parte dos equipamentos estava quebrada, mas foram filmadas imagens dos criminosos deixando o presídio uniformizados. Em nenhum momento a movimentação atípica da dupla foi percebida, embora houvesse equipes de monitoramento tanto em Mossoró quanto em Brasília. Foram relatados ainda problemas de iluminação, com parte das lâmpadas apagadas. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, afirmou que os funcionários da penitenciária estavam “mais relaxados” devido ao feriado de carnaval.
Além dos erros evidentes, a resposta foi lenta. Só se percebeu que os presos não estavam mais nas celas às 5h, quase duas horas depois da evasão. Embora o presídio fique distante do perímetro urbano de Mossoró e seja cercado por mata, os criminosos ganharam tempo. A Polícia Federal montou uma operação de captura com 300 agentes, drones e helicópteros. Encontrou rastros dos criminosos, mas a demora na reação tornou o trabalho mais difícil.
Lewandowski anunciou medidas para aumentar a segurança nos presídios federais: revisão de protocolos, ajustes no sistema de câmeras, instalação de sensores, alarmes e muralhas em torno das unidades, a exemplo do que já ocorre em Brasília. Visitas e banhos de sol foram temporariamente suspensos.
Inaugurado em 2006, o sistema de presídios federais, que abriga alguns dos criminosos mais perigosos do país, tem se mostrado eficaz para isolar bandidos que aterrorizam a população. A fuga de Mossoró é a primeira em quase duas décadas. Não deixa de ser um histórico positivo. Mas o episódio já provocou arranhões na imagem de cadeias inexpugnáveis. É possível tirar lições importantes do caso. É esperado que detentos planejem fugir e até que contem com ajuda interna. Por isso é preciso analisar com serenidade tudo o que deu errado em Mossoró para impedir que falhas semelhantes ocorram lá e nos demais presídios federais. Diante do risco de fugas, cabe ao governo dificultá-las ao máximo. Não foi o que aconteceu no Rio Grande do Norte.
Editorial O Globo