Golpes com uso de inteligência artificial exigem maior atenção de autoridades
CIDADÃOS E EMPRESAS PRECISAM SE PRECAVER CONTRA ÁUDIOS E VÍDEOS FRAUDULENTOS CRIADOS POR IA
Novas ferramentas de inteligência artificial (IA) têm se tornado armas poderosas nas mãos de criminosos. O mundo do crime já usa técnicas capazes de simular com perfeição a voz e a imagem em áudios e vídeos conhecidos como deepfakes. Como relatou reportagem do GLOBO, uma estudante de enfermagem começou a receber chamadas insistentes de números desconhecidos. Atendeu uma delas e ouviu uma mensagem eletrônica pedindo que confirmasse dados pessoais para atualização de cadastro. O telefonema não passou de um minuto, mas foi o suficiente para que sua voz fosse gravada. Não demorou muito para sua mãe receber um telefonema simulando, com a voz da filha, o pedido de um depósito na conta de uma amiga desconhecida.
Outra vítima, influenciador de rede social com 20 mil seguidores, se surpreendeu ao encontrar um vídeo numa rede social em que ele, numa praia, relatava como ganhara dinheiro fácil investindo R$ 1 mil para ter um lucro quase instantâneo de R$ 10 mil. Constavam ainda da postagem diálogos falsos dele com alguém a quem atribuía ajuda no investimento, além de diversos comprovantes bancários. Mais um golpe típico da era dos deepfakes.
Tais exemplos revelam a que ponto chegam as artimanhas dos golpistas facilitadas pelo uso da IA. De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, durante quase uma década foram registrados apenas 201 golpes de estelionatários no meio digital. Só no ano passado esses casos chegaram a 11.485. Os golpes via internet ficaram à frente de estelionatos cometidos em lares (8.035), na via pública (3.948), no estabelecimento financeiro (2.752) ou em loja comercial (2.109). Neste ano, os registros totais de estelionatos no Rio já cresceram 14,5% no primeiro trimestre. Certamente haverá mais denúncias de uso de IA ou outras ferramentas para acesso ilegal a contas bancárias, investimentos ou cartões de crédito.
A facilidade torna esse tipo de golpe irresistível para os criminosos. A criminalidade se sofistica na mesma proporção do avanço das tecnologias digitais. É preciso desconfiar sempre de telefonemas ou mensagens com ofertas mirabolantes para compra de bens ou investimentos, além de evitar atender ligações de números desconhecidos. Não apenas os cidadãos, mas também as empresas precisam se precaver contra essas ações criminosas, por meio da criação de departamentos de segurança digital ou da contratação de consultorias especializadas para se proteger. Por fim, governo, Congresso e Justiça têm de trabalhar para oferecer à sociedade ferramentas jurídicas robustas capazes de coibir essa nova vertente do crime.
Editorial O Globo