Recentemente, ganhou repercussão a imagem de um bebê de três meses usando uma embalagem plástica de bolo como respirador. Foi uma forma que a equipe médica encontrou para salvar a vida da criança por falta do aparelho necessário. E salvou. Nesse caso, o hospital Aluízio Bezerra, no município de Santa Cruz (RN), no Agreste potiguar, onde o bebê foi atendido, não é especializado nesse tipo de atendimento. Contudo, outras situações ocorrem nos hospitais públicos por falta da estrutura adequada, levando os profissionais da saúde a superarem as deficiências na tentativa de salvar vidas.
O presidente do Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed/RN), o médico Geraldo Ferreira, diz que alguns aspectos dessa dinâmica são crônicos, porque a rotatividade de materiais é alta nos hospitais. Em unidades maiores, por exemplo, são cerca de cinco mil itens, entre equipamentos, instrumentos e medicações.
“É muito difícil você ir a uma unidade que não esteja faltando alguma coisa. Às vezes não são casos extremos, mas são casos lesivos ao paciente”, aponta. Ele cita o exemplo dos fios de sutura no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, porque “muitas vezes estão faltando fios adequados”.
O médico diz que não é raro que os pacientes voltem a ser operados devido ao uso de fios muito finos nas cirurgias e que, episódios como este, são relatados ao Sindicato com frequência. Além de Natal e da região metropolitana, onde as denúncias apresentadas ao Sindicato podem ser resolvidas ou cobradas com mais agilidade, no interior do Estado a situação se torna mais delicada e a solução demora a chegar. “Quanto mais você vai para o interior, mais a situação é aguda”, afirma o presidente do Sinmed/RN.
O Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró, no Oeste potiguar, registra o que o SinMed chama de “casos dramáticos”. O delegado regional da entidade, Ronaldo Fixina, informou ao presidente que as amputações de membros por falta de material necessário para realizar os procedimentos são frequentes. “A situação da cirurgia vascular e da neurocirurgia em Mossoró é preocupante em termos de equipamentos e materiais”, diz Geraldo.
“Faltam as próteses vasculares. Então, como não tem prótese vascular para remendar o vaso, acaba tendo que optar por amputação. É lamentável”, lamenta o médico.
Dentro da estrutura de saúde brasileira ele avalia que “é melhor ter do que não ter” e, por isso, apesar das condições não serem ideais, o atendimento precisa continuar da forma como é possível. “Se você fizer nada, é pior”, frisa Geraldo Ferreira.
A conduta ética do profissional da medicina preconiza que sejam realizadas práticas seguras no atendimento do paciente, mas, em contextos como este, o médico pode ficar sem outras opções e precisam improvisar.
No último mês de abril, junto com o Sindicato dos Profissionais da Saúde (SindSaúde), o SinMed denunciou mais uma vez que o Hospital Walfredo Gurgel estava sofrendo com forte desabastecimento. A reclamação era de que faltavam insumos básicos, como sabão, luvas, gaze, e medicamentos, como dipirona e antibióticos. As denúncias apontavam que o desabastecimento estava sendo comum na unidade, contudo, de acordo com as denúncias, estava se agravando. Na ocasião, a Secretaria Estadual de Saúde (Sesap) informou que o hospital mantinha todas as condições de recebimento à população, realizando mais de 200 atendimentos diários apenas no pronto-socorro.
Com informações da Tribuna do Norte