Incompetências do Brasil
PAÍS CAI, DE NOVO, EM RANKING DE COMPETITIVIDADE. EFICIÊNCIA GOVERNAMENTAL PUXA PIORA
Ao ocupar a 62.ª colocação em uma lista com 67 países, o Brasil amarga uma nova queda, pelo quarto ano consecutivo, no ranking mundial de competitividade do International Institute for Management Development (IMD), uma escola de negócios suíça. Logo atrás, nesse pelotão digno de rebaixamento, penduram-se Peru, Nigéria, Gana, Argentina e Venezuela. “Nossas incompetências” explicam o desempenho pífio, nas palavras de Hugo Tadeu, líder da pesquisa no Brasil e professor da Fundação Dom Cabral, parceira da instituição europeia.
O levantamento, que chega à sua 36.ª edição, aponta os países com as melhores condições de prosperidade e concorrência externa. O ranking busca mapear pontos fortes e fracos das economias avaliadas para oferecer uma bússola a governos e empresas. Para isso, o IMD recorre a 336 indicadores. Parece que o Brasil aprendeu muito pouco.
Cingapura, Suíça e Dinamarca – economias pequenas – encabeçam a lista por fatores como bom uso de acesso a mercados do exterior, políticas públicas eficazes, infraestrutura avançada e educação básica sólida. Nada disso se encontra em abundância na gigantesca economia brasileira. Em 2020, o Brasil ocupava a 56.ª colocação e, desde então, já caiu seis posições. No ano passado, o País estava em 60.º lugar e agora recuou em razão da piora da eficiência governamental e da infraestrutura.
A baixa oferta de programas para a formação de gestores, a falta de eficiência do setor público e a burocracia excessiva resumem os desafios do País. Apesar do mercado de trabalho aquecido e do crescimento do PIB, custo de capital, legislação trabalhista – que, após a reforma aprovada no governo Michel Temer, vive sob constante ameaça do governo lulopetista –, contas públicas e barreiras tarifárias colocam o Brasil nas piores posições na esfera de políticas governamentais.
A reforma tributária, ora em fase de regulamentação no Congresso Nacional, favorece condições competitivas, mas não basta, sozinha, para impulsionar o País. É preciso ir além: “Estamos caindo porque estamos asfixiando a cadeia produtiva brasileira, o custo de capital está cada vez maior e porque tem ‘muito Brasília e pouco Brasil’”, avaliou o professor Hugo Tadeu. De acordo com ele, o País não tem empreendido esforços suficientes em ciência, tecnologia, inovação e formação de mão de obra. “Estamos deixando de lado essa agenda. E a gente não está focando em indústrias que sejam relevantes ao nosso crescimento.” Ou seja, o Brasil ainda segue a receita perfeita para o fracasso.
Ao se desdobrar os subitens da pesquisa, sinônimo de fracasso mesmo é a educação. Em habilidades linguísticas – capacidade de escutar, falar, ler e escrever –, o Brasil ficou em último lugar. O País ocupa ainda a penúltima posição tanto na formação básica como na superior. O aprimoramento da competitividade passa por valorização do conhecimento, melhoria da eficiência governamental e investimentos em infraestrutura. Impossível imaginar avanços em ciência, tecnologia e inovação com cenário tão desolador.
Opinião do Estadão