Desde que foi eleito para o seu 3º mandato como presidente em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reatou os laços do Brasil com a Venezuela, rompidos durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e endossou a imagem do presidente venezuelano, Nicolás Maduro (Partido Socialista Unidos da Venezuela, esquerda), perante o mundo.
A relação entre o petista e o herdeiro de Hugo Chávez (1954-2013) teve desgastes quando o governante do país vizinho tentou articular a anexação de Essequibo, região do território da Guiana, no fim de 2023. Voltou a estremecer na última semana, depois que Maduro disse, sem citar Lula, que, quem tivesse se assustado com seu prognóstico de um “banho de sangue” caso seja derrotado nas eleições, tomasse um “chá de camomila”.
O governo brasileiro acompanhou com atenção os movimentos do venezuelano às vésperas da eleição presidencial, realizada neste domingo (28.jul.2024). Há 2 receios principais:
de que as eleições sejam fraudadas; ou de que o atual presidente não aceite uma eventual derrota e impeça um processo de transição.
Maduro, de 61 anos, tenta o 3º mandato à frente da República Bolivariana da Venezuela. Assumiu o cargo pela 1ª vez em 2013. Comanda um regime autocrático e sem garantias de liberdades fundamentais. Mantém, por exemplo, pessoas presas pelo que considera “crimes políticos”. Enfrentará o diplomata aposentado Edmundo González Urrutia (Plataforma Unitária Democrática, centro-direita), de 74 anos.
Pela 1ª vez, a oposição pode ameaçar de fato a continuidade do governo de Maduro. O cenário eleitoral é considerado incerto ao analisar as pesquisas de intenção de voto divulgadas ao longo da corrida eleitoral. Mas algumas mostram González à frente. Ainda assim, Maduro disse até a véspera da eleição não haver possibilidade de derrota.
Lula enviou ao país vizinho seu assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, para acompanhar o processo eleitoral. Por ser um dos poucos representantes de governos e da comunidade internacional, a atuação do ex-chanceler brasileiro ganhou peso.
A presença do ex-chanceler reforça a posição do Brasil como aliado e principal ator na tentativa de assegurar um processo democrático no país. Qualquer declaração de Amorim e reação do governo Lula terão impacto na forma como outros países podem reagir ao resultado eleitoral.
Por isso, a subida de tom de Maduro contra Lula nos últimos dias foi recebida com irritação por assessores do petista, que optaram por não responder às críticas para evitar uma escalada da tensão já existente na eleição.
Em 22 de julho, Lula disse que Maduro precisava aprender a vencer e a perder eleições. Afirmou ter ficado assustado com declaração de seu homólogo de que haveria um “banho de sangue” caso seja derrotado. No dia seguinte, 23 de julho, Maduro respondeu, sem citar o nome do petista, que quem havia se assustado, que tomasse “um chá de camomila”.
Na 4ª feira (24.jul.2024), Maduro voltou a fazer críticas ao dizer, sem provas, que o sistema eleitoral de Brasil, Estados Unidos e Colômbia não auditam processos eleitorais. Disse que a Venezuela tem “o melhor sistema eleitoral do mundo”. No entanto, as urnas brasileiras são auditáveis.
A declaração levou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a cancelar o envio de observadores para o pleito deste domingo (28.jul). Também incomodou o governo brasileiro por sugerir algo semelhante às acusações feitas por Bolsonaro durante as eleições de 2022.
Na 6ª feira (26.jul), o governo venezuelano fechou as fronteiras terrestres do país e bloqueou a entrada de um avião que transportava os ex-presidentes do Panamá Mireya Moscoso, da Bolívia Tuto Quiroga e do México Vicente Fox. Maduro disse que eles eram “persona non grata” e “ridículos” e que não haviam sido convidados pelo Poder Eleitoral do país. O grupo integrava a ONG Iniciativa Democrática da Espanha e são críticos ao líder da Venezuela.
Aliados de Lula avaliam que, caso Maduro não respeite o resultado das eleições, o petista ficará em uma situação complicada. Teria de calcular muito bem uma reação que não fosse interpretada como um endosso a uma eventual quebra do processo democrático, mas que também pudesse assegurar a estabilidade política na região.
Poder 360