O governo federal ficou sem alternativa a não ser avalizar um empréstimo de R$ 20 bilhões para que os Correios tentem evitar um cenário mais extremo, de aporte direito do Tesouro na estatal. O que causa espanto é o Governo Lula só ter percebido a gravidade da crise na empresa no décimo mês do terceiro ano deste mandato.
A prova disso foi a manutenção do advogado Fabiano Silva dos Santos, ligado ao grupo Prerrogativas, na presidência da companhia de janeiro de 2023 a setembro deste ano, quando foi indicado o atual presidente, Emmanuel Rondon, um funcionário de carreira do Banco do Brasil, que há 20 dias assumiu a tarefa de reestruturar a estatal.
O primeiro passo de Rondon foi tentar levantar esse empréstimo com o aval do governo, para alongar dívidas, reduzir custos financeiros, pagar fornecedores e reativar a cadeia de serviços dos Correios. Do ponto de vista da empresa, o empréstimo com aval é um bom negócio, o problema é que o risco e os juros da operação ficarão pendurados sobre o contribuinte.
A administração atual tenta culpar o Governo Bolsonaro, que surfou na onda da pandemia para impulsionar as receitas da estatal. De fato, as medidas de isolamento aumentaram a demanda por serviços de entrega, o que ajudou os Correios.
Mas o balanço da companhia mostra que o efeito mais forte ocorreu apenas em 2021, quando as receitas líquidas atingiram o valor recorde de R$ 21,3 bilhões. O que de fato não tem parado de subir são as despesas gerais e administrativas dos Correios, que saltaram de R$ 2,5 bilhões, em 2018, para R$ 4,73 bilhões em 2024, um aumento de 89%, muito acima da inflação de 39% acumulada no período.
Em 2025, somente no primeiro semestre esses gastos somaram R$ 3,4 bilhões, o que ajuda a entender o rombo de R$ 4,37 bilhões no período, o triplo dos mesmos meses do ano anterior.
A empresa é alvo de cobiça de políticos em Brasília, porque possui capilaridade por todo o território nacional. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou a estatal ao União Brasil, que vem ditando, na prática, as cartas na companhia.
Os Correios vivem um problema estrutural, que é ter a obrigatoriedade de oferecer o serviço por todo o território nacional, o que é extremamente custoso, ao mesmo tempo que enfrenta a concorrência de empresas privadas, como grandes grupos de logística, que possuem caixa, mas principalmente agilidade de gestão.
Há dúvida se os Correios conseguirão se reerguer. O melhor caminho seria a companhia voltar para o azul e logo após ser implementado um plano de privatização ou fatiamento com venda de ativos.
Alvaro Gribel - Estadão