Lição do Banco Master: bons funcionários salvam instituições, não relatórios de Compliance
Em julho de 2024, dois gerentes da Caixa Econômica Federal, Daniel Cunha Gracio e Maurício Vendruscolo, foram afastados dos cargos depois de vetar com base técnica uma operação de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master.
O parecer de 19 páginas era cristalino: modelo de negócios de difícil compreensão, rating interno BB+, alto risco de solvência e volume incompatível com o histórico da Caixa Asset. Resultado? Em vez de reconhecimento, destituição imediata, vista nos corredores como retaliação para desobstruir o comitê de investimentos.
Meses depois, em novembro de 2025, a história se confirma da pior forma possível: o Banco Master é liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, Daniel Vorcaro é preso em Guarulhos acusado de fraude de R$ 12 bilhões em carteiras fictícias e o FGC enfrenta o maior resgate da sua história, R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de credores.
Os gerentes da Caixa não eram “burocratas chatos”. Eram simplesmente bons profissionais que fizeram o trabalho certo. Protegeram o dinheiro público quando ninguém queria ouvir. Salvaram a Caixa de um rombo que poderia estar hoje na conta do contribuinte.
Não precisa ser especialista em Compliance para entender o óbvio: quem diz “não” com fundamento merece promoção, não punição.
Um sistema de Compliance saudável não se mede pelo número de políticas escritas ou treinamentos obrigatórios, mas pela capacidade de proteger quem identifica e bloqueia o problema antes da catástrofe.
Agora que os fatos estão na mesa, é hora de corrigir o erro. Os gestores da Caixa que afastaram esses profissionais em 2024 precisam ser responsabilizados.
Se houve pressão política ou corporativa para forçar o negócio, que isso venha à tona. Auditoria completa, transparência total e, se for o caso, troca de comando onde o bom senso foi ignorado.
Porque, se continuarmos premiando quem cala a verdade e punindo quem a defende, o próximo Banco Master não será uma exceção, será apenas uma questão de tempo.
Bons funcionários não são obstáculos. São a última linha de defesa.
Obrigado, Daniel e Maurício.
Canindé Alves
Advogado. Sócio da Alves, Duarte e advogados. Mestre em direito.