O Padre Dalmário usou seu Instagram para dizer que o grande mal do nosso tempo é o morango do amor. Sim, o doce açucarado virou símbolo de um vazio existencial, na visão turva no padre. Mas, curiosamente, o mesmo padre não esboça um pio, sequer um sussurro, diante do aumento da miséria, da insegurança, da censura, da escalada autoritária ou do colapso dos serviços públicos. Não critica o governo estadual, finge que não vê os desmandos do governo federal e parece mais incomodado com doces do que com filas nos hospitais ou almas aflitas
Falar do “desespero por atenção” de quem dá uma mordida performática em um doce pode soar filosófico, mas revela, no fundo, o vazio que habita o próprio púlpito do autor, um padre político e fiel a cegueira. Porque é muito mais fácil pregar contra o óbvio e inofensivo do que enfrentar a realidade. É mais simples debochar do filtro de Instagram do que denunciar o filtro ideológico que encobre a verdade no noticiário oficial ou de uma igreja ainda contaminada por Dom Jaime, cheia de ideologismo. O padre escolheu mirar o chocolate derretido e não na fé, na busca por conforto dos fiéis.
A real ditadura não é a do algoritmo é a do silêncio cúmplice. A vida real, que o padre diz estar esquecida, grita nas ruas e nos bolsões de pobreza. E se alguém está faminto por atenção, não é o jovem do que morde o morango, mas o clero calado diante da injustiça. Quem sabe se, em vez de condenar o morango, o padre começasse a distribuir amor com a mesma intensidade com que distribui julgamentos, a mensagem dele deixasse de ser só mais uma postagem esquecida no feed da hipocrisia.
Xô amargura!