Um conjunto de oito programas recém-criados pelo governo federal deve injetar R$ 88 bilhões na economia até o fim de 2026, segundo cálculo do BTG Pactual em relatório distribuído a clientes nesta segunda-feira (26). O banco avalia que a medida ajuda nas pretensões eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas aponta dois efeitos diretos: impulso fiscal, com pressão inflacionária, e dificuldade crescente de controle das finanças públicas, uma conta que raramente aparece na propaganda oficial.
O relatório lista os programas e seus valores estimados: crédito consignado privado (R$ 24 bilhões), isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil (R$ 31 bilhões), Gás do Povo (R$ 1,6 bilhão), Luz do Povo (R$ 4,3 bilhões), Reforma Casa Brasil (R$ 13,9 bilhões), Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida (R$ 7,7 bilhões), novo modelo de crédito imobiliário (R$ 22,3 bilhões) e mudanças no saque-aniversário do FGTS (R$ 16,7 bilhões negativos). Na leitura do BTG, trata-se de uma série de iniciativas que mantém o estímulo acima de 2025, combinando transferência, subsídio e expansão de crédito.
O ponto sensível está no desenho: R$ 33 bilhões do total têm impacto primário, puxados pela isenção do IRPF e pelo Gás do Povo, enquanto R$ 56 bilhões não afetariam diretamente o resultado primário por envolverem mecanismos como crédito e subsídios, caso da Faixa 4 do MCMV, crédito para reformas, subsídio na conta de luz, novo modelo de crédito imobiliário e crédito consignado privado. Na prática, amplia-se o impulso econômico e o ganho político tentando manter parte relevante do custo fora do indicador fiscal que mais pesa no debate público.
O BTG avalia que o espaço fiscal “parece menos restritivo” e prevê cumprimento da meta de resultado primário ao considerar exceções do arcabouço e o limite inferior do objetivo, com ajuda de receitas extraordinárias como dividendos de estatais, leilões de petróleo e acordos de transação tributária. Ainda assim, o relatório destaca que seguem presentes fatores estruturais de alta dos gastos obrigatórios, como a vinculação ao salário mínimo, as indexações, o envelhecimento populacional, regras de elegibilidade pouco focalizadas e a judicialização, pressionando despesas em ritmo difícil de conciliar com as regras do próprio arcabouço.
Na projeção do banco, a dívida bruta sobe para 82,1% em dezembro de 2026, alta de 10,4 pontos percentuais no atual mandato, e o limite de despesas crescendo 2,5% ao ano em termos reais não se harmoniza com a estabilização da dívida sem ajuste concentrado em receita, justamente quando a carga tributária já é elevada. O resultado é um roteiro conhecido: alívio no curto prazo, com a fatura ficando para depois e, convenientemente, depois da urna.