Na madrugada de sábado, quando a Venezuela foi alvo de um ataque inédito dos EUA a um país da América do Sul em 200 anos, o governo brasileiro não foi pego de surpresa, afinal, era um cenário esperado, mas após as explosões, ficou no escuro. Longe das épocas em que Brasil e Venezuela eram aliados regionais e, nesse contexto, os governos do PT tinham acesso privilegiado às autoridades em Caracas e, em consequência, a informações sobre o acontecia no país vizinho, hoje esse acesso é muito mais limitado. Horas após o ataque, o governo brasileiro colhia informações com fontes variadas na Venezuela e tentava entender o papel da vice-presidente Delcy Rodríguez no governo pós-Nicolás Maduro.
Se houve alguma negociação entre Delcy e os EUA, o Brasil nunca soube disso. No sábado, uma das dúvidas em Brasília era se a vice venezuelana tinha sido empossada. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva era procurado por chefes de Estado da região e cobrou de ministros e assessores informações claras sobre o que acontecia em Caracas.
Temer e Bolsonaro
Se o Brasil já tinha perdido espaço e influência na Venezuela pelos seis anos de ausência durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, agora deverá lidar com presença ativa dos EUA dentro do país. Um dos objetivos de Lula no seu terceiro mandato era recuperar o terreno perdido. Pouco disso foi possível, e após o ataque americano, será ainda mais difícil.
Mas nem todas foram perdas para o Brasil. Há uma grande notícia para celebrar, pelo menos até o momento: a não participação da ala opositora liderada por María Corina Machado no processo político iniciado após o ataque dos EUA. A líder opositora não é bem vista pelo Palácio do Planalto, e após desentendimentos também suspendeu suas comunicações com o Itamaraty. Nesse aspecto, a manutenção do regime chavista causou alívio no governo brasileiro, que tem canais de diálogo recentemente reforçados pelo telefonema de Lula a Maduro, em dezembro.
Quando Hugo Chávez chegou ao poder, em janeiro de 1999, o Brasil era governado por Fernando Henrique Cardoso. A relação entre ambos os chefes de Estado foi boa, mas o período de maior sintonia entre os dois países foi alcançado nos dois primeiros governos de Lula (2002-2010). Foram naqueles anos em que o Brasil se tornou um dos maiores aliados da Venezuela chavista na região, com presença expressiva no território venezuelano e enorme influência política entre as mais altas autoridades de lá.
Em seu terceiro mandato, Lula tentou recompor a relação, mas fracassou. A Venezuela já tinha se tornado uma ditadura nua e crua, e o Brasil, após a eleição de 28 de julho de 2024, decidiu não reconhecer mais a legitimidade de Maduro como chefe de Estado. Foi mantido um vínculo pragmático, com a presença de uma embaixada e consulados na Venezuela, mas o governo Lula III nunca conseguiu recuperar o espaço que Lula I e Lula II tiveram no país, tanto na economia como na política.
O espaço deixado pelo Brasil nos governos Temer e Bolsonaro foi ocupado por novos sócios como Rússia, China, Turquia e Irã, entre outros. Cuba continuou sendo essencial em matéria de inteligência e segurança. Após o ataque, os EUA passaram a ser um ator central, e o tempo dirá como o resto se acomodará ou não.
Antes de vencer sua primeira eleição, Lula mantinha um vínculo próximo com Cuba, e conheceu Chávez, que já era presidente. Depois de chegar à Presidência, o petista se tornou uma referência e uma pessoa de permanente consulta para Chávez e seu governo.
Não só Lula, como seu então chanceler Celso Amorim. Outra figura importante no vínculo bilateral foi o já falecido Marco Aurélio Garcia, que foi assessor internacional do presidente, cargo que Amorim ocupou no governo Lula III. Marco Aurélio fazia frequentes viagens a Caracas e tinha relação muito próxima de Chávez e seu governo.
US$ 1 bi ainda não pagos
Nos anos dourados da relação bilateral, o Banco Nacional de Desenvolvimento Social concedeu empréstimos — até 2025 não pagos — de cerca de US$ 1 bilhão ao governo venezuelano. Havia em Caracas escritórios de do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica Aplicada e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, da Caixa Econômica Federal, entre outros. Os representantes diplomáticos do Brasil eram dos mais importantes do corpo diplomático em Caracas. Isso mudou radicalmente no governo Lula III.
O afastamento entre os dois países afetou especialmente Roraima, onde em 2018 foi criada a Operação Acolhida, que recebe refugiados venezuelanos. A suspensão da importação de energia elétrica da Venezuela, em março de 2019 (pouco depois do reconhecimento de Bolsonaro a Juan Guaidó como “presidente legítimo” do país), obrigou o estado — em meio a frequentes apagões — a gastar em torno de US$ 275 milhões anuais para produzir energia em termelétricas a diesel, sistema mais caro e mais poluente. Antes, Roraima desembolsava US$ 50 milhões por ano para importar energia venezuelana.
Por outro lado, o estado multiplicou suas exportações para o país vizinho. A implementação de sanções por parte dos EUA e da União Europeia (UE) contra a Venezuela impossibilitou o envio de carregamentos por via marítima, que antes saíam principalmente de São Paulo, e intensificou o comércio terrestre. Essas são apenas algumas das consequências da deterioração da relação bilateral.
'Confiança se quebrou'
No início do chavismo, com FHC, houve dois momentos importantes: organização da primeira cúpula de presidentes sul-americanos, em meados do ano 2000, com a qual o então presidente brasileiro pretendia colocar o Brasil na liderança da América do Sul, na qual Chávez esteve presente; e o não reconhecimento por parte do Brasil do governo golpista de Pedro Carmona, em abril de 2002. Na pauta da cúpula do ano 2000 estavam temas como comércio, infra-estrutura, democracia, narcotráfico, ciência e tecnologia. Naquele anos, a Venezuela debatia sobre democracia, e os sinais de que Chávez se tornaria um líder autoritário ainda não eram fortes.
Com Lula I e II, o chavismo já mostrava seu perfil autoritário, mas isso não era questionado pelo Brasil. Nos bastidores, porém, o governo brasileiro tentava evitar que Chávez debandasse para o grupo de governos ditatoriais. Em 2004, o governo Lula foi essencial para convencer o então líder bolivariano a realizar um referendo sobre sua continuidade no poder.
Nesses anos, o Brasil ajudou a Venezuela a se tornar membro pleno do Mercosul, bloco do qual o país foi expulso, em 2016, justamente por violar sua cláusula democrática. Em 2024, após a fraude escancarada da última eleição presidencial, o Brasil foi um ator essencial para impedir a entrada da Venezuela no Brics (grupo originalmente formado por Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul). Eram novos tempos na relação bilateral, Amorim, que no meio da crise dos Brics foi declarado persona non grata na Venezuela, afirmou que “a confiança se quebrou” entre os dois países.
O Globo