No processo de substituição de carteiras consideradas problemáticas, o Banco Master ofereceu ao Banco de Brasília (BRB) dois fundos de investimento supostamente lastreados em títulos do Tesouro dos Estados Unidos, localizados na ilha de Jersey, território britânico próximo à Inglaterra, e em Nassau, nas Bahamas.
O BRB realizou diligências para verificar a consistência dos ativos apresentados e o resultado foi alarmante. As apurações indicaram que, na prática, não existiam ativos nos fundos oferecidos.
Na ilha de Jersey, a constatação foi categórica: desde 2023, o fundo não possuía qualquer recurso em suas contas. Já nas Bahamas, a equipe encarregada da análise foi informada de que não havia papéis do Tesouro americano nem ações de grandes empresas. Além disso, não foi permitido o acesso ao real conteúdo do fundo.
As descobertas ocorreram pouco antes de o Banco Central barrar a venda do Banco Master para o BRB. Segundo apuração, foi justamente a identificação dessas carteiras problemáticas durante a análise da transação que levou à deflagração da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, em 18 de novembro. No mesmo dia, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Master.
De acordo com os investigadores, o valor das carteiras supostamente falsas vendidas pelo Banco Master ao BRB chegaria a R$ 12,2 bilhões. A suspeita é de que o Master tenha utilizado uma empresa de fachada para captar e revender os papéis, sem desembolsar qualquer valor para adquiri-los.
Em depoimento prestado à Polícia Federal na sede do Supremo Tribunal Federal (STF), em 30 de dezembro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que o Banco Master havia substituído a carteira considerada podre por outros ativos. Esses novos papéis, no entanto, somavam R$ 10 bilhões.
Os R$ 2 bilhões restantes ainda estavam em negociação quando o Banco Central determinou a liquidação do Master, o que acabou interrompendo a operação, conforme os depoimentos colhidos pela PF. Os fundos sediados na ilha de Jersey e nas Bahamas integravam justamente o conjunto de ativos avaliados em R$ 10 bilhões entregues na tentativa de substituir a carteira original.
Paulo Henrique Costa será ouvido novamente pelos investigadores no próximo dia 3 de fevereiro, conforme revelou a coluna Grande Angular. Um dos principais pontos do novo depoimento será a liquidez dos ativos entregues na substituição da carteira de R$ 12,2 bilhões, fator determinante para dimensionar o eventual prejuízo do BRB.
A investigação tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, e ocorre paralelamente a uma apuração no Tribunal de Contas da União (TCU). Na última segunda-feira (5), o ministro Jhonatan de Jesus determinou a realização de uma inspeção no Banco Central para analisar os documentos que embasaram a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master.
O Banco Central recorreu da decisão nesta terça-feira (6), argumentando que esse tipo de determinação deve ser tomada pelo colegiado da Corte, e não por decisão monocrática. No recurso, a autoridade monetária solicitou que o pedido seja submetido ao colegiado competente para deliberação formal.