Há exatos sete dias, Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, comemorava um feito histórico: a segunda colocação na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados por Minas Gerais, com 524.219 votos — resultado que a tornou a mulher mais votada da história do estado para o cargo e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.
Influenciadora com 4,4 milhões de seguidores somados em suas redes, a jovem foi recebida por Lula (PT) em Brasília na quarta-feira (7/10) e anunciada como integrante do núcleo de estratégia digital da campanha presidencial para o segundo turno, após o petista reconhecer que a disputa contra Flávio Bolsonaro (PL) exigia reforço nas redes sociais.
A lua de mel durou menos de 24 horas. Na quinta-feira (8/10), o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) — o mais votado do país, com mais de 3 milhões de votos — publicou um print atribuído a Ana Elisa em que ela supostamente pedia a Lula, em outubro de 2022, que "fechasse as igrejas" porque "esses crente só faz merdaaaa".
Ao divulgar a imagem, Nikolas escreveu: "já virei voto demais com isso aqui". A publicação se espalhou rapidamente por perfis bolsonaristas, somando-se a outros prints atribuídos à deputada eleita com frases como "odeio branco", "tô nem aí pra empreendedor", defesa do bloqueio de redes sociais pelo ministro Alexandre de Moraes e críticas a padres e à Igreja Católica.
A equipe de Ana Elisa reagiu classificando o print sobre o fechamento de igrejas como uma montagem forjada, afirmando que a mensagem "não existe no histórico de sua conta" e que a imagem foi atribuída a ela quando tinha apenas 17 anos. "Forjaram uma mensagem, atribuíram a uma adolescente e a usaram contra uma mulher eleita", disse a nota da assessoria, que anunciou a intenção de acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério Público contra Nikolas por disseminação de fake news, além de solicitar uma perícia para comprovar a falsificação.
A reportagem, no entanto, revelou um quadro mais complexo. Levantamentos de veículos de imprensa identificaram outras publicações, essas sem contestação de autenticidade por parte da deputada, com teor semelhante ao da polêmica original:
em fevereiro de 2023, ainda aos 17 anos, Ana Elisa criticou Lula por não ter "fechado as igrejas como prometido";
em abril do mesmo ano, voltou a cobrar o "fechamento de igrejas";
e já maior de idade, em maio de 2026, defendeu a retirada da isenção fiscal de igrejas evangélicas.
A própria nota da assessoria da deputada reconheceu, em determinado trecho, que "posts antigos e autênticos também foram tirados de contexto", e que Ana Elisa "assume o que escreveu, retrata-se e pede desculpas a quem se sentiu ofendido" — ao mesmo tempo em que a equipe argumentou que o uso de declarações feitas quando ela era adolescente violaria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A escalada da crise teve seu capítulo mais grave na quinta-feira (8/10) à noite, quando Ana Elisa relatou que sua equipe precisou desativar sua conta no X (antigo Twitter) após uma onda de ameaças.
"Nós estávamos recebendo ameaça de morte a cada dois minutos. Ameaça de morte e ameaça de estupro. Estou totalmente vulnerável. Eu, por enquanto, não tenho uma força-tarefa de segurança", afirmou em vídeo publicado em suas redes. A deputada eleita responsabilizou nominalmente Nikolas Ferreira e os irmãos do governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos) — Gleidson Azevedo (Republicanos) e Eduardo Azevedo (PL) —, pela disseminação do conteúdo que considera falso, e pediu que os três fossem responsabilizados caso algo lhe acontecesse.