Mensagens obtidas pelo UOL e reveladas nesta terça-feira (13/10) trazem um elemento até então não explorado nas investigações sobre as festas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master: indícios de uma estrutura de recrutamento, deslocamento e controle de mulheres brasileiras e estrangeiras — incluindo refugiadas — que pode configurar tráfico internacional de pessoas.
Até agora, a cobertura sobre as festas de Vorcaro havia se concentrado em revelações sobre o círculo de autoridades que participava dos eventos, nos apelidos usados pelo banqueiro e seus promoters, e em affairs com celebridades. A diferença, nesta nova apuração, é que o material aponta para uma logística organizada de aliciamento, com uso de dados de passaporte, controle de permanência de estrangeiras no Brasil e tentativa de criar uma agência para formalizar o esquema.
O assunto, inclusive, foi alvo do destaque do discurso de Damares Alves, que cobrou investigação da ligação de Vorcaro com essa rede. Assista no vídeo abaixo:
O caso da refugiada ucraniana
O episódio mais sensível revelado pela reportagem envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos, que entrou no grupo em outubro de 2023, durante a organização de uma festa de Halloween. Em novembro daquele ano, Vorcaro informou que deixaria de pagar hospedagem e passagens para mulheres que decidissem permanecer no Brasil — ela ficou.
Diogo Batista, promotor de eventos que recebia R$ 120 mil mensais do banqueiro, chegou a compartilhar dados do passaporte da jovem para organizar seu deslocamento ao Rio de Janeiro, e relatou que ela não podia voltar ao país de origem porque a cidade estava sendo bombardeada. Nas mensagens, surge a proposta de "colocar ela na agência" para, nas palavras do próprio promoter, "lavarmos as mãos".
Tentativa de usar agência de modelos para centralizar recrutamento
As conversas mostram que Vorcaro negociou a compra de 50% da agência de modelos Allure Eventos, por R$ 1,5 milhão, com o objetivo — segundo mensagens de Diogo Batista — de ficarem "blindados" ao formalizar as contratações das mulheres. O proprietário da agência, Felipe Nisti Cataldo, contesta a versão de que o negócio tenha avançado nos termos descritos.
Ainda assim, o grupo discutiu o cadastramento de mulheres recrutadas em viagens pelo Sul do país e a locação de uma casa para hospedar as "modelos", com a orientação de que os funcionários do local fossem exclusivamente mulheres.
Estrutura internacional, com viagens a Paris, Londres, Roma e Dubai
A apuração do UOL identificou uma logística que ultrapassava as fronteiras do Brasil, com deslocamento de mulheres para eventos em Paris, Londres, Roma e Dubai, sob responsabilidade do empresário Leonardo Serrano, dono da SL Consulting, sediada na Flórida (EUA).
Documentos indicam que a empresa emitiu 21 faturas entre abril de 2024 e março de 2025, somando cerca de US$ 70 milhões, repassadas à gestora Moriah Asset e, segundo a reportagem, encaminhadas ao setor financeiro do Banco Master sob descrições de "eventos" e "hospitalidade".
Festas como a de Halloween de 2023, na boate Madame Satã, chegaram a reunir mais de 120 mulheres, segundo as mensagens, e um evento em Londres, em abril de 2024, com presença de autoridades de Brasília, mobilizou a logística de 99 mulheres "levadas para trabalhar". Em uma dessas trocas, Serrano chegou a negar, em fevereiro de 2024, que estivesse envolvido em "tráfico de pessoas", atribuindo a responsabilidade a Diogo Batista.