Um relatório da área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou-se o centro de uma disputa jurídica e política entre as campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nesta semana, após afirmar não ter encontrado, no canal de WhatsApp "Exército do Lula", as notícias falsas específicas que motivaram a abertura de uma investigação contra o grupo. A conclusão, no entanto, não encerrou a polêmica — pelo contrário, abriu uma nova fase de embate sobre a confiabilidade da apuração.
O que diz o relatório técnico
A Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do TSE foi acionada pelo ministro Kassio Nunes Marques, presidente da Corte, para analisar o canal criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) em apoio à candidatura de Lula. No período examinado — entre os dias 2 e 11 de outubro —, a equipe técnica não identificou a reprodução das afirmações investigadas nos autos, que envolviam supostos cortes de benefícios sociais, alteração de regras de aposentadoria e temas religiosos.
Apesar disso, o próprio parecer técnico aponta ressalvas que colocam em xeque a abrangência da checagem: parte do conteúdo publicado em setembro havia sido apagado antes da análise, e os vídeos vinculados às postagens não puderam ser integralmente transcritos, segundo o documento, devido à urgência da consulta solicitada por Nunes Marques. O relatório também identificou "evidências de atuação coordenada e centralizada para inflar conteúdos digitais" e descreveu um crescimento considerado atípico: a base de inscritos saltou de cerca de 55 mil, em 5 de outubro, para 3,3 milhões em 11 de outubro — expansão de aproximadamente 60 vezes em seis dias, com mensagens de convocação que chegaram a 344 mil encaminhamentos.
A tese da campanha de Flávio: apagamento proposital
A campanha de Flávio Bolsonaro contesta diretamente a conclusão de que não havia fake news no canal. Em nota, os advogados do senador afirmam que o próprio apagamento sistemático de mensagens e comandos — citado pelo relatório técnico como uma limitação da checagem — é a prova de uma estratégia deliberada para burlar o controle da Justiça Eleitoral e da plataforma.
Segundo a campanha, somente na madrugada do dia 8 de outubro, horas depois de boatos sobre um possível questionamento judicial, Janones publicou a mensagem de que "não divulgará uma única fake news até o final da campanha" e, 42 minutos depois, apagou 219 publicações em 18 minutos. Entre o conteúdo removido estariam links associados a desinformações sobre o fim do reajuste do Bolsa Família e cortes de aposentadorias — informações que, segundo a campanha, continuam circulando nas redes e somam, juntas, mais de 4 milhões de visualizações.
A campanha também argumenta que o canal adota práticas para dificultar o rastreamento: orienta seguidores a copiar e colar conteúdos em vez de encaminhá-los — contornando os limites de encaminhamento das plataformas — e a divulgar vídeos sem assisti-los, para enganar os algoritmos de relevância. Além disso, aponta que Janones costuma emitir apenas comandos curtos ("explodam", "compartilhem") vinculados a links externos, deixando o conteúdo potencialmente ilícito fora do texto digitado e, portanto, fora do alcance direto da varredura técnica.
A decisão de Nunes Marques e a reviravolta no TSE
Com base nesse quadro, o presidente do TSE determinou, no domingo (11/10), a suspensão do canal — então com 3,8 milhões de inscritos —, sob a justificativa de que a Meta, dona do WhatsApp, descumpriu o plano de conformidade de 91 páginas firmado com o tribunal em agosto, que veda o uso de canais para disseminar falsidades ou fazer envios em massa. Procurada, a Meta não comentou o caso.
A decisão, porém, não durou. No mesmo dia, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, revogou a suspensão, por entender que o bloqueio não poderia ter sido feito por via administrativa. O caso seguiu para análise de mérito, com prazo de cinco dias para defesas de Lula, Janones e do vice-presidente Geraldo Alckmin, e de 72 horas para a campanha de Flávio detalhar as supostas irregularidades.
Consequência: o canal cresce em meio à disputa
Em vez de reduzir o alcance do grupo, o embate jurídico coincidiu com uma explosão de audiência: na noite de segunda-feira (12/10), o "Exército do Lula" superou os 4 milhões de inscritos — contra 1,4 milhão da "Tropa do Flávio", criada por Nikolas Ferreira (PL-MG) em resposta. Janones comemorou o resultado atribuindo-o à repercussão da tentativa de suspensão: "Tentaram nos calar, tentaram nos censurar (.) e o tiro saiu pela culatra".
O episódio ilustra o impasse central da disputa: a área técnica do TSE não encontrou, dentro do que conseguiu checar, as fake news apontadas na ação original — mas o próprio relatório reconhece falhas de acesso aos dados, justamente o ponto que a campanha de Flávio Bolsonaro usa para sustentar que o canal foi estruturado para escapar da fiscalização, e não que estivesse livre de conteúdo ilícito.