Eleito papa em maio de 2025, Robert Prevost trouxe para a Santa Sé uma vitalidade inaudita entre pontífices desde que João Paulo 2º começou seu calvário público, nos anos 1990. Tanto Bento 16, que renunciou devido à idade, quanto Francisco exsudavam fragilidade.
Praticante de tênis, sem histórico de problemas sérios de saúde e com meros 69 anos ao assumir, o primeiro papa americano parecia iniciar uma caminhada longa para consolidar seu trabalho à frente do Vaticano.
A notícia de que precisaria remover um nódulo do pulmão e o subsequente diagnóstico de câncer, assim, causaram consternação entre o 1,4 bilhão de católicos e entre os que veem no agora papa Leão 14 uma força promissora na arena global.
Neste ano e meio, o papa assumiu uma voz firme contra o populismo que grassa em escala planetária e foi crítico das políticas do americano Donald Trump.
Rejeitou o tratamento desumano a imigrantes, a guerra no Irã, a expansão de gastos militares. De forma mais ampla, disse que conceitos da extrema direita são incompatíveis com o cristianismo.
Na doutrina, promove um ajuste no equilíbrio de forças internas na Igreja, evitando o progressismo desabrido do antecessor.
Se não comanda mais divisões, como ironizou Josef Stálin em 1935, Prevost conhece o poder da instituição que lidera, assim como testemunharam sucessores do ditador soviético ante o papel do polonês João Paulo 2º no desmantelamento do comunismo no Leste Europeu.
Para estruturar seu governo, o papa precisa de aliados. Ele ainda não teve a oportunidade de criar cardeais, esperando o número de integrantes do colegiado máximo da Igreja baixar do teto presumido de 120 eleitores com menos de 80 anos.
Cada pontífice busca um Colégio Cardinalício próximo de seu pensamento, e Leão 14 não começou seu desenho. Agora, a necessidade de dedicar-se a um tratamento de saúde potencialmente debilitante coloca uma interrogação sobre o futuro imediato.
Prevost tem 71 anos e é vigoroso. A depender da evolução de seu quadro, algo sujeito a inúmeras variáveis, tudo sugere que ele possa se recuperar plenamente —mas talvez não a ponto de realizar a viagem à América Latina prevista para novembro.
Por ora, o caso deixou uma notável marca: a transparência. Leão 14 divulgou a cirurgia em audiência pública e, logo após a intervenção na terça (13), o boletim do hospital já qualificava o tumor como adenocarcinoma pulmonar, sem eufemismos.
Editorial Folha de São Paulo