Depois de uma campanha eleitoral capturada por escândalos de corrupção e pela crise no Supremo Tribunal Federal (STF), o País vai às urnas neste domingo, 4, enfrentando uma divisão política que jogou a terceira via para escanteio e afunilou a disputa à Presidência em apenas dois nomes com chances de vencer. De um lado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que concorre ao quarto mandato, e, de outro, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL.
O desfecho da disputa, cada vez mais acirrada, é imprevisível. Pesquisa Atlas divulgada neste sábado,3, mostra Lula com 47% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 44,1% no primeiro turno. O segundo pelotão, formado por Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), aparece bem atrás.
No segundo turno, Lula aparece com 50,1%, contra 49,9% de Flávio, uma diferença de apenas 0,2 ponto porcentual. Os dois estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro da pesquisa.
Desde a redemocratização, esta é a campanha que menos interesse desperta nos eleitores. O duelo entre o presidente e o senador, seu principal desafiante, foi batizado por políticos como “a disputa da rejeição”. Os dois apresentam alto índice de desaprovação no eleitorado, cada um deles na casa dos 45%.
Os lances derradeiros da corrida presidencial mostraram intervenções de ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com canetadas em cima da hora que acabaram levando a TV Globo a cancelar, na quinta-feira, 1º, o último debate do primeiro turno entre os candidatos ao Palácio do Planalto.
Com estratégias definidas por seus marqueteiros, Lula e Flávio não participaram de nenhum debate até agora. Proibida pela ministra Estela Aranha, do TSE, de exibir a cadeira vazia simbolizando a ausência do presidente – que, no horário marcado para o confronto televisivo, dava entrevista ao podcast Flow –, a Globo preferiu suspender o compromisso. Antes, a emissora já havia sido obrigada pelo decano do STF, Gilmar Mendes, a convidar Renan Santos – conhecido por carimbar Flávio como “bandido da política” –, e pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, a chamar Romeu Zema.
Munida por sondagens qualitativas, que medem o humor do eleitorado, Flávio aproveita agora o descontentamento com “tudo o que está aí” para reforçar o discurso do “voto útil” no primeiro turno, na tentativa de liquidar a fatura neste domingo.
“Se você estava pensando em não votar, compareça. A única candidatura que pode superar o Lula é a do Flávio Bolsonaro”, pediu o candidato do PL, falando na terceira pessoa, numa transmissão ao vivo após o cancelamento do debate. “Me dê o seu voto de revolta já no primeiro turno”, acrescentou.
Lula também tenta conquistar eleitores indecisos, que podem ser o fiel da balança no confronto, e evitar o fenômeno da abstenção. Em áudio enviado na noite deste sábado a grupos de WhatsApp, ele disse: “Amanhã você vai decidir o destino do seu País. Ou você escolhe votar em alguém que se preocupou com a educação, com o emprego e com o desenvolvimento econômico, ou alguém que criou a quadrilha da Previdência e do Banco Master”.
Dados do TSE mostram que, no segundo turno da disputa presidencial de 2022, aproximadamente 32,2 milhões de pessoas deixaram de comparecer às urnas, número que corresponde a 20,58% dos eleitores.
“Foi quase uma Argentina que se absteve”, comparou o cientista político Antonio Lavareda, ao destacar que o eleitorado apto a votar no país vizinho é da ordem de 35 milhões.
Levantamentos que abastecem a campanha de Lula assinalam que o desencanto de eleitores com o governo decorre sobretudo da alta do custo de vida, do endividamento das famílias – muitas vezes provocado por apostas online, as bets – e de casos de corrupção.
A percepção da maioria, de acordo com esses monitoramentos, é a de que a vida está estagnada ou só piora. Mesmo eleitores beneficiados por programas sociais, como o Bolsa Família, manifestam descontentamento.
Desespero bateu perto da primavera
Em 10 de setembro, uma reunião de emergência do QG de Lula decidiu mudar drasticamente a rota da campanha. Apavorados com o avanço de Flávio nas pesquisas, dirigentes do PT argumentaram que, se o governo não agisse para liberar recursos, o presidente corria o risco de perder a eleição.
Embora relatório da Polícia Federal mostrasse a ligação de Flávio com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, nada parecia colar no senador. No PT, o adversário do PL passou a ser chamado de “candidato Teflon”.
Para piorar o quadro, trocas de mensagens entre Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes, reveladas pelo Estadão, provocavam impacto negativo na campanha de Lula. Não sem motivo: desde a tentativa de golpe, em 8 de janeiro de 2023, Moraes se transformou em um dos principais aliados do governo.
Naquele 10 de setembro, perto da primavera, Lula sancionou o fim da chamada “taxa das blusinhas”. Mas a medida não foi suficiente para atrair os votos esperados. O presidente foi aconselhado a se descolar cada vez mais de Moraes em suas declarações.
Uma semana depois, Lula anunciou um reajuste de 15,04% no Bolsa Família. Apesar dos alertas do Ministério da Fazenda sobre a perda considerável de arrecadação, o petista também editou, no último dia 25, uma Medida Provisória proibindo as bets no País. Além disso, divulgou a terceira edição do programa Desenrola, desta vez para renegociar dívidas antigas.
“Não estamos disputando contra Flávio. Estamos disputando contra o sentimento de mudança”, afirmou o presidente do PT, Edinho Silva, coordenador da campanha de Lula. “E Flávio catalisa esse sentimento.”
Janja discutiu com Stuckert
Disputas de poder, intrigas e fogo amigo marcaram tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio neste primeiro turno.
No PT, a primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, reclamou, por exemplo, do fato de Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial da Presidência, ficar de frente para o público nos comícios de Lula.
A gota d’água ocorreu em 16 de agosto, no lançamento da campanha de Lula à reeleição, no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, de onde o petista comandou greves de metalúrgicos que desafiaram a ditadura militar, no fim dos anos 70.
Sob reserva, três integrantes da campanha contaram ao Estadão que Janja não gostou nada de ver Stuquinha – apelido do fotógrafo de Lula – em posição de destaque no palco, muitas vezes aparecendo mais do que os convidados. Ele recuou, mas, desde então, os dois estão estremecidos. Procurada, a primeira-dama disse, por meio de sua assessoria, que não teve nenhum problema com Stuckert.
Na prática, Janja dá ordens aos coordenadores da campanha e restringe o contato do marido com auxiliares da velha-guarda do PT. Mas a indisposição entre ela e Stuckert não é de hoje.
Desde o início do governo, Janja tenta comandar os perfis de Lula nas redes sociais. Já teve uma aliada nessa função, mas, com a entrada do publicitário baiano Sidônio Palmeira na Secretaria de Comunicação Social (Secom), em janeiro de 2025, tudo mudou.
Os perfis de Lula nas redes são administrados por Stuckert e pela jornalista Nicole Briones, que cuida das plataformas digitais do PT. Janja também já se desentendeu com Briones, mulher do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que, por sua vez, brigou com Sidônio.
Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decretou o tarifaço sobre produtos brasileiros, Lula achava que sua imagem nas redes deveria ser mais firme. A portas fechadas, disse a Sidônio que não queria mais saber de “gatinhos” e “capivaras” para explicar ações do governo.
Marcola concordou com Lula e Sidônio viu a posição do chefe de gabinete como uma interferência indevida. Os dois tiveram uma discussão áspera na frente do presidente.
Outro mal-estar na campanha ocorreu quando integrantes do comitê de Lula avaliavam como a equipe petista deveria agir diante da revelação de que o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), havia pedido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, para comprar um apartamento no valor de R$ 2,5 milhões.
“Por muito menos, o Zé Dirceu ficou fora”, disse Nicole Briones na reunião, de acordo com relatos de duas pessoas presentes ao encontro.
O comentário sobre Wagner desagradou à “República da Bahia”, uma referência jocosa de uma ala do PT aos baianos que comandam o marketing da campanha e são amigos do senador.
Citado por Briones, Dirceu foi chefe da Casa Civil no primeiro mandato de Lula e hoje é candidato a deputado federal. Preso em 2013, acusado de chefiar o esquema do mensalão, ele retornou ao cárcere outras três vezes, na esteira da Lava Jato. Suas últimas condenações foram anuladas em 2024.
Uma das crises que mais abalaram Lula durante a campanha foi a que envolveu os nomes de Marcola e de seu filho Fábio Luís, o Lulinha. Marcola despachava ao lado do presidente, no terceiro andar do Planalto, quando vieram à tona informações de que a lobista Roberta Luchsinger havia pago uma série de despesas para ele, totalizando R$ 249 mil. Após a descoberta da Polícia Federal, ele alegou que foi um empréstimo, quitado depois, e deixou a coordenação da campanha de Lula.
Roberta é amiga do empresário Fábio Luís. Tanto ela como o filho do presidente respondem a inquéritos no STF que investigam tráfico de influência no governo. Dona de uma consultoria, Roberta prestava serviços para Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso pela PF sob a acusação de desviar recursos de aposentadorias.
“Pelo que eu sei, ela é uma pilantra muito grande. Ela muito se assemelha ao Vorcaro, porque o Vorcaro conseguiu enganar um monte de gente e ela também parece que enganou um monte de gente. Deve ser o Vorcaro feminino”, afirmou Lula em entrevista ao podcast Flow.
Briga com Michelle quase implodiu campanha de Flávio
Momentos de turbulências também marcaram a trajetória eleitoral de Flávio. Mas, do anúncio da pré-candidatura, em dezembro de 2025, até abril passado, o senador conseguiu superar a desconfiança daqueles que achavam que seu projeto não era para valer.
O mercado e até mesmo líderes evangélicos preferiam a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), à cadeira de Lula. Mas o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe, deixou claro que só confiava em Flávio para o seu projeto de poder. Se eleito, o senador já avisou que anistiará o pai.
Em maio, a revelação de áudios em que Flávio pede R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, que conta a vida de Bolsonaro, provocou um terremoto em sua campanha.
Um mês e onze dias depois, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo nas redes sociais dizendo ter sido humilhada e levado uma “punhalada” do enteado, após discordar de um acordo político firmado por ele no Ceará.
Nessa fase, a disputa de poder na campanha, mais fisiológica do que ideológica, pôs seus principais personagens em rota de colisão. Michelle deixou a presidência do PL Mulher batendo a porta e as crises queimaram os responsáveis pela comunicação como fusíveis: primeiro foi o publicitário Marcello Lopes, que entrou em atrito com o coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN). Depois, Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer, considerados pela equipe como politicamente inábeis.
No fim de julho, quando Michelle e Flávio fizeram as pazes – pelo menos nas aparências – e o marqueteiro Duda Lima assumiu os programas eleitorais de rádio e TV, o candidato voltou a subir nas pesquisas, também impulsionado pela crise no STF.
Um novo abalo ocorreu nos últimos dias, quando até Nossa Senhora Aparecida desembarcou na campanha. A polêmica envolvendo a notícia falsa de que Flávio pretendia tirar da santa o título de padroeira do Brasil agitou a corrida ao Planalto e escancarou as divergências entre o STF e o TSE.
Com a guerra santa e a MP das Bets anunciada por Lula, Flávio chegou à semana final do primeiro turno na defensiva. Por dias a fio, tentou colar no adversário a pecha de “pai do Tigrinho”, numa alusão ao prejudicial jogo de caça-níquel online. Mais tarde, acusou a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) de “ajudar o PT” a propagar notícias falsas contra ele. A declaração foi vista como desastrosa por sua equipe e, mesmo a contragosto, o senador arrumou um jeito de consertar o que disse.
“Quanto mais Flávio tenta se explicar, mais ele se complica. Como sempre. Agora, está acusando a CNBB de ser conivente com a polêmica envolvendo Nossa Senhora”, criticou Ronaldo Caiado. “Flávio, que Deus acalme seu coração. Tenha respeito pelas religiões e pela fé do povo brasileiro!”, emendou o ex-governador de Goiás.
Estadão