Decisões eleitorais para o Legislativo, principalmente para o Senado, em geral são tomadas na véspera das eleições. Candidatos para esses cargos costumam surfar na onda do momento. Qual foi ela? A impressão de impunidade e intervenções generalizadas do Judiciário gerou um movimento de revolta em eleitores, a desaguar votos de protestos em candidatos de direita e mesmo extrema-direita. É o que mostram as pesquisas divulgadas neste sábado, 3.
Impeachment de ministros do STF foi uma das principais bandeiras de campanha de candidatos ao Senado em todo o Brasil. O irônico é o mote ter ganhado impulso dos próprios ministros do STF em duas decisões tomadas em pleno processo eleitoral. A primeira delas foi poupar Alexandre de Moraes de um pedido de investigação por ligações espúrias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A segunda foram as interferências explícitas no debate da Rede Globo, que acabaram por provocar o cancelamento pela emissora.
A empáfia dos ministros, principalmente de Flávio Dino, Gilmar Mendes e do próprio Moraes, transmitida ao vivo pela televisão, não revoltou apenas bolsonaristas, mas também aqueles eleitores independentes que queriam votar no menos ruim, ou em ninguém. Os próprios ministros acabaram por direcionar o movimento contra eles.
Não foi apenas estratégia equivocada, mas também certa cegueira com relação aos movimentos da sociedade. O voto raivoso contra o Judiciário pode levar a um strike comandado por senadores antissistema das regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e parte do Norte do país. Nem mesmo barrar a candidatura de Deltan Dallagnol, no Paraná, irá frear o movimento. Ao contrário, irá exacerbá-lo.
O paradoxo é que um candidato que ainda precisa dar explicações sobre suas relações com Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro, pode ter sido beneficiado no final desses movimentos tectônicos. Sem biografia ou trajetória consistente, ameaça o mais expressivo político brasileiro dos últimos 70 anos. Talvez a explicação não passe pelos critérios racionais de decisão, mas pela emoção envolvida. O sobrenome Bolsonaro tornou-se sinônimo de tudo o que é antissistema, e o sistema a ser combatido agora é identificado por uma espécie de joint venture que une o Palácio do Planalto e o STF. Agora, eles veem atônitos os “bárbaros” se aproximarem com avidez de suas cidadelas.
Fabiano Lana - Estadão