A Latam recebeu nesta quinta-feira, na sede da Embraer em São José dos Campos (SP), o seu primeiro jato E195-E2. A entrega formaliza o início da operação da companhia com aeronaves da fabricante brasileira, movimento que rompe a exclusividade da Azul no uso dessa aeronave no mercado doméstico e sinaliza uma mudança na estratégia de malha das empresas que operam no país. O jato entregue hoje é o primeiro de um lote de 12 aeronaves previstas para compor a frota até o final de 2026.
A combinação entre a disparada nos custos globais de energia e as mudanças nas regras fiscais brasileiras vão cair na conta do consumidor que precisa viajar de avião a partir do próximo ano. A avaliação é do CEO da Latam, Jerome Cadier, que aponta o patamar elevado do querosene de aviação (QAV) e a implementação da Reforma Tributária, a partir de janeiro, como fatores diretos de pressão sobre as tarifas e sobre o potencial de expansão do mercado doméstico.
O cenário operacional das companhias esbarra nos desdobramentos dos conflitos no Oriente Médio. Sem o amparo de subsídios estatais como os aplicados ao diesel e à gasolina, as empresas aéreas absorvem integralmente as flutuações do mercado externo.
Cadier estima que o setor continuará operando com combustíveis caros por um período de 12 a 18 meses, consolidando um patamar de preços 90% superior ao registrado antes da guerra.
— Apesar de a gente não ter, diferentemente do diesel ou da gasolina, nenhum subsídio no Brasil, a gente tem visto uma demanda resiliente, principalmente corporativa. Mas até quando, não se sabe. Precisamos de uma postura mais cautelosa em relação ao que vem pela frente, porque a gente não sabe a duração disso nos próximos meses — avaliou o executivo.
Se o custo do querosene é um fator externo repassado ao longo da cadeia, a Reforma Tributária altera a base de cálculo diretamente no momento da compra do bilhete. O texto em discussão no Congresso prevê a eliminação do ICMS — que hoje incide sobre o combustível de aviação — mas cria o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que será aplicado sobre a venda da passagem com uma alíquota que pode chegar a 26,5%.
O CEO da Latam pontua que, embora a implementação seja gradual ao longo dos próximos oito anos, o impacto final recairá sobre o bolso do consumidor, freando o ritmo de inclusão de novos passageiros no Brasil.
— A Reforma Tributária do jeito que ela está hoje vai fazer com que exista um aumento da arrecadação sobre a venda de passagens aéreas. Não é a Latam que paga o imposto, quem paga o imposto é quem compra a passagem, quem viaja — explicou Cadier.
A nova dinâmica de arrecadação também criará uma divisão no perfil dos passageiros. Como o IVA permite que pessoas jurídicas tomem crédito do imposto pago, o segmento de viagens corporativas — que tem sustentado a resiliência da demanda aérea nos últimos dois anos — conseguirá amortecer o aumento. O viajante de lazer, no entanto, absorverá a mudança de forma integral.
— No caso da pessoa física, que está viajando não por motivo de negócio, mas por turismo, essa não vai se creditar e essa, sim, vai pagar a alíquota cheia — disse o presidente da Latam, destacando que o peso da reforma será sentido pelos viajantes.
A mitigação do choque de custos estruturais tem exigido do setor uma readequação de frotas, focada na eficiência energética. A incorporação dos jatos E195-E2 da Embraer pela Latam reflete essa estratégia de contenção.
Como o modelo entrega um consumo de combustível até 30% menor em comparação às gerações anteriores, a renovação passa a ajudar a equilibrar a balança contra a cotação do querosene inflacionada pela instabilidade geopolítica.
O jato brasileiro também funcionará como peça-chave para a expansão de rotas regionais, estratégia que também está ligada com a Reforma Tributária. As aéreas tentam ser enquadradas como operadoras de aviação regional, a fim de terem uma alíquota reduzida.
A regra aprovada pelo Congresso Nacional deu tratamento diferenciado apenas a esse segmento, com a justificativa de que é necessário estimular a ligação fora de regiões metropolitanas em um país de dimensões continentais.
Iata prevê menos rotas
A pressão tarifária gerada pela Reforma Tributária é vista pelo setor como o principal gargalo de longo prazo para a aviação na América Latina. A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) projeta que a aplicação da alíquota de 26,5% resultará em um aumento de 16% no preço das passagens domésticas e de 13% nas rotas internacionais operadas no Brasil. O saldo estimado pela entidade é uma retração de 21% nas viagens internas.
Em entrevista ao GLOBO, o vice-presidente da Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) para as Américas, Peter Cerdá, classificou a formulação do imposto como um problema mais grave e estrutural do que as oscilações do petróleo.
— O combustível nós podemos contornar, faz parte dos nossos custos e o seu preço flutua. A reforma tributária, porém, é algo que não podemos controlar — resumiu Cerdá, alertando que o repasse desse custo generalizado forçará as companhias a interromper a abertura de novas rotas no país.
A organização argumenta que, num país com dimensões continentais e deficiência em malhas ferroviárias, encarecer o modal aéreo pode afetar não apenas o fluxo de pessoas, mas a logística nacional de cargas sensíveis, como o transporte de produtos farmacêuticos e de tecnologia.
— No mês passado, treze companhias aéreas se reuniram com o governo e foram categóricas: queremos crescer no Brasil, mas, se a reforma for aprovada no estado atual, vamos parar de expandir e de abrir novas rotas — disse o VP da Iata.
O Globo