O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, discutiu com o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, os termos de um acordo para que um empresário aliado comprasse metade da financeira do BRB na gestão de Paulo Henrique Costa, indiciado pela Polícia Federal (PF) na última quarta-feira (28) no inquérito que investigou as fraudes em carteiras de crédito da instituição de Vorcaro para o banco estatal de Brasília. A equipe do blog teve acesso a diálogos trocados entre o agora ex-banqueiro e o dirigente do União, extraídas do celular de Vorcaro pela PF.
Os diálogos indicam que Antonio Rueda e Daniel Vorcaro se encontraram pessoalmente ao menos duas vezes durante as negociações em suas respectivas mansões no Lago Sul, região nobre de Brasília.
Como revelamos na coluna em maio, a compra da BRB Financeira por um grupo por José Ricardo Lemos Rezek, amigo próximo de Rueda, foi um negócio “de pai para filho” e enfrentou resistência dentro e fora do banco estatal do negócio. Pernambucano, Rueda foi eleito em outubro deputado federal pelo Rio de Janeiro por influência de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo que hoje está preso por suspeita de liderar um esquema de lavagem de dinheiro e de conexões com o Comando Vermelho e milícias. Na época, porém, Rueda não tinha mandato eletivo.
O consórcio encabeçado por Rezek se comprometeu na época a pagar R$ 320 milhões em 10 parcelas anuais. Só que os lucros da financeira variavam em torno de R$ 90 milhões por ano, segundo fontes do BRB. A compra, portanto, sairia de graça, porque os lucros da empresa adquirida já seriam maiores do que as parcelas a serem pagas.
No WhatsApp, Rueda e Vorcaro trataram sobre os termos do acordo que estava sendo negociado com os acionistas do BRB para garantir que Rezek e seu grupo tivessem maioria de votos no conselho da companhia mesmo tendo 49% do capital.
Uma das conversas ocorreu em 1º de julho de 2024, quatro dias antes de Paulo Henrique Costa anunciar ao mercado uma “parceria estratégica” entre o consórcio de Rezek e o BRB. O negócio em si só seria concretizado em março de 2025, na mesma época em que o banco de Brasília anunciou a compra do Master.
Oficialmente, Rueda não tinha relação com a transação. Mas as mensagens mostram que na prática ele discutia com Vorcaro seus termos em detalhes.
Na troca de mensagens de julho de 2024, o dirigente do União envia um trecho de um "acordo com acionistas" do BRB. Em resposta, Vorcaro sugere um ajuste no texto para constar a outorga de poder para operações financeiras e de crédito.
Na minuta de acordo que Rueda manda a Vorcaro, o nome da BRB Financeira não é mencionado diretamente, mas o do banco sim, junto com termos próprios da atividade das financeiras. O texto prevê ampla autonomia para os diretores a serem indicados pelo consórcio, incluindo o financeiro, que teria liberdade para aprovar operações, entre outras cláusulas técnicas.
Dois dias depois, Vorcaro escreve avisando que estava atrasado para uma reunião com Rueda em Brasília. “Atrasou aqui pra liberarem decolagem to decolando agora. Devo pousar 16:30 e vou direto para ai.” Rueda assente e manda seu endereço em Brasília. Não fica claro onde Vorcaro estava antes de decolar rumo à capital federal.
Questionado pela equipe da coluna sobre o seu papel e o do banqueiro nas tratativas, o deputado federal eleito Antonio Rueda afirmou que sua atuação “em todas as questões relativas ao Banco Master limitou-se à assessoria jurídica, sempre na condição de advogado, no exercício regular da profissão e dentro dos limites legais e éticos” e que, por isso, “as comunicações com clientes são protegidas pelo sigilo profissional”. Rueda não esclareceu as mensagens referentes a PH Costa e Augusto Lima.
Rezek, por sua vez, afirmou por meio de nota que “jamais tratou de qualquer assunto” da BRB Financeira com Rueda e Vorcaro e que “desconhece a relação delas com a instituição”. O empresário alegou ainda que “a decisão de ingressar na sociedade foi de natureza exclusivamente empresarial, baseada na avaliação de uma oportunidade comercial” e que desistiu do negócio “após análises de natureza mercadológica e técnica” (veja o inteiro teor após o fim da reportagem).
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro informou que não irá se manifestar sobre as mensagens. O banqueiro está preso desde março passado.
Dono de empresas em diversos setores, Rezek foi um dos convidados da festa de 50 anos de Rueda em Mykonos, na Grécia, em 2025. Em 2023, seu pai, o também empresário José Ricardo Rezek, doou R$ 1,5 milhão ao Diretório Nacional do União Brasil, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Rezek pai também vendeu uma aeronave a uma empresa investigada pela Polícia Federal por suspeita de ter sido feita para mascarar o verdadeiro sócio, Rueda – o que ele nega. Para tentar comprar metade da BRB Financeira, Rezek filho se associou ao KardBank, uma empresa de consignado do Nordeste cujos acionistas teriam uma participação mínima no negócio.
Os registros do celular de Vorcaro mostram que, meses antes das conversas com Rueda BRB Financeira, os dois já tinham falado de Rezek pelo menos três vezes. “Puder chama”, escreve Rueda em 7 de dezembro de 2023. “Assunto Rezek tá andando. Depois da um toque p ele”. Dias depois, em 12 de dezembro, nova menção: “Oi, pode falar Com Rezek aqui”. Vorcaro responde: “Fala irmão. Posso.” Já em junho de 2024 Rueda envia ao dono do Master um arquivo PDF com um plano de negócios do grupo de Rezek na área imobiliária.
‘Me chamou quer dividir’
Em 4 de julho, o presidente do União demonstra preocupação ao relatar que Augusto “queria dividir" – referência a Augusto Lima, então sócio de Vorcaro no Master e mentor do modelo de negócios de consignados do banco.
“Augusto me chamou queria dividir. Tô voltando p bsb [Brasília]”, escreveu Rueda. “Queria alinhar o que falei”.
Após duas ligações, Rueda avisa que chegou à capital, e Vorcaro manda seu endereço no Lago Sul.
A partir dos diálogos não é possível depreender o que exatamente Lima, conhecido também como “Guga”, queria “dividir”, mas fica claro o incômodo de Rueda.
No dia seguinte, em 5 de julho de 2024, data em que o BRB anunciou o negócio, Rueda escreve para Vorcaro: "PH precisando falar c vc".
PH Costa é como o ex-presidente do BRB era chamado no setor. Costa está preso desde maio no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”.
O comunicado ao mercado do BRB trouxe uma mensagem efusiva e otimista de PH Costa sobre o negócio assinado com Rezek:
“Com essa aliança, estamos não apenas expandindo nossa capacidade de atuação no mercado de crédito consignado e cartões de benefícios, mas também fortalecendo nossa posição como um banco inovador e dinâmico, que passará a oferecer soluções ainda mais robustas e abrangentes para nossos clientes em todo o Brasil. Estamos confiantes de que essa parceria impulsionará significativamente o desenvolvimento da Financeira BRB e contribuirá para o crescimento contínuo do banco”.
O acordo acabaria cancelado em dezembro de 2025, diante de objeções feitas por diretores do Banco Central (BC) e da desistência do próprio consórcio com o avanço das investigações sobre as fraudes na venda de títulos do Master ao BRB, que levaram à liquidação da instituição privada e à primeira prisão de Vorcaro. Um dos principais problemas levantados pelo BC à época foi justamente os termos do acordo com os acionistas que, mostram as mensagens, o presidente do União Brasil negociou diretamente com o CEO do Master.
Relembre o negócio
Como mostramos no blog em maio, a negociação entre a BRB Financeira e o consórcio liderado por Rezek era vista no banco de Brasília como um esqueleto da gestão de Paulo Henrique Costa e um potencial capítulo da delação premiada que ele tentou negociar com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e que nunca avançou.
De acordo com cinco fontes a par das discussões ouvidas pela equipe da coluna na época, o negócio enfrentou resistência dentro e fora do BRB. O Banco Central inclusive chegou a barrar a transferência de capital por ter encontrado problemas na comprovação da origem dos recursos usados na compra, além de divergências quanto ao acordo de acionistas discutido entre Rueda e Vorcaro.
O grupo de Rezek recorreu, mas o BC não chegou a dar seu parecer final. Àquela altura, o regulador já estava sobrecarregado com apurações internas sobre as fraudes na compra de carteiras do Master pelo BRB que levariam à liquidação do banco.
A transação da BRB Financeira com o grupo de Rezek teve o fim selado em uma reunião no dia seguinte à liquidação e à prisão de Vorcaro, em 19 de novembro, quando dirigentes do BC chamaram dois conselheiros e um diretor do BRB para discutir as providências a serem tomadas dali em diante.
Segundo quatro fontes a par do que se discutiu ali, além de alertar para a necessidade de uma capitalização do banco estatal de Brasília e de discutir os perfis de possíveis substitutos de PH Costa, afastado dias antes na Operação Compliance Zero, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, Renato Gomes, também avisou os representantes do BRB: se eles não cancelassem o negócio da financeira, o BC acabaria fazendo isso.
A equipe da coluna apurou também que o próprio Paulo Henrique Costa foi alertado diversas vezes por diretores do Banco Central sobre a atipicidade do negócio e o prejuízo que representaria para o BRB, mas ignorou os avisos.
No final de dezembro, pouco mais de um mês após a primeira prisão do CEO do Master e do desmantelamento da instituição, o BRB anunciou o cancelamento do negócio.
Um mês antes do anúncio da transação da BRB Financeira, em 27 de fevereiro de 2025, Paulo Henrique Costa disse a Daniel Vorcaro pelos WhatsApp que tinha tomado um café com Rueda e precisava falar com ele.
Na ocasião, Rezek afirmou por meio de nota que “desde o início, tratou-se de uma negociação de natureza exclusivamente comercial, que jamais sofreu qualquer tipo de interferência política”. Disse, ainda, que foi o próprio grupo de investidores que desistiu da compra da BRB Financeira. “A desistência decorreu de uma avaliação estritamente mercadológica, técnica, e foi formalmente comunicada ao BRB, em conformidade com os instrumentos contratuais firmados entre as partes”.
Já os sócios de Rezek, Carla Pontes e André Azin, afirmaram que coube a ele o aporte da maior parte do dinheiro para a compra da fatia da BRB Financeira. Por isso, cada um teria 5% do negócio, enquanto Rezek teria 39%.
Questionado na última terça-feira (3), o empresário disse à equipe do blog que só entrou no negócio depois que o banco de Brasília firmou tratativas com a empresa após ser convidado pelos investidores e “com participação minoritária”, ao contrário do que alegam seus ex-sócios.
Azin e Carla afirmaram à época da primeira reportagem desconhecer a projeção de lucro anual de R$ 90 milhões e que desistiram do contrato logo após o BRB anunciar a compra do Banco Master diante das incertezas em torno do processo, mas a rescisão só foi oficializada no final de 2025, após a liquidação do banco de Vorcaro. Ambos disseram ainda que nunca estiveram com Rueda e só o conhecem de nome.
Leia abaixo a íntegra da nota do presidente do União Brasil, Antonio Rueda:
Minha atuação, em todas as questões relativas ao Banco Master, limitou-se à assessoria jurídica, sempre na condição de advogado, no exercício regular da profissão e dentro dos limites legais e éticos.
As comunicações com clientes são protegidas pelo sigilo profissional (Estatuto da Advocacia e da OAB, arts. 7º, II, e 34, VII, e Código de Ética e Disciplina da OAB).
As demais perguntas dizem respeito a condutas e declarações de terceiros.
Atenciosamente,
Antonio de Rueda
Confira a íntegra da nota de José Ricardo Lemos Rezek:
O empresário José Ricardo Lemos Rezek jamais tratou de qualquer assunto da BRB Crédito, Financiamento e Investimento (BRB Financeira) com as pessoas citadas, e desconhece a relação delas com a instituição.
É importante ressaltar que Rezek não participou de qualquer processo para a aquisição da BRB Financeira.
Somente após a conclusão desse processo, Rezek foi procurado e convidado pela empresa vencedora a integrar o negócio, na condição de investidor, com participação minoritária na BRB Financeira.
A decisão de ingressar na sociedade foi de natureza exclusivamente empresarial, baseada na avaliação de uma oportunidade comercial. Após análises de natureza mercadológica e técnica, Rezek desistiu do negócio, o que foi comunicado publicamente. A operação, portanto, sequer se concretizou.
Malu Gaspar - O Globo