Sabe a famosa história da "vergonha alheia"? É isso que dá para sentir ao ver o caso do juiz Cristiano Cesar Ceolin, da 1ª Vara de Mairiporã, Grande São Paulo. Ele, simplesmente, confundiu uma deformidade facial de uma testemunha, que impede o fechamento completo da boca, com uma risada durante audiência criminal por videoconferência.
A reportagem é da CNN Brasil. Após fazer sucessivas perguntas para confirmar se a depoente o escutava, o magistrado a repreendeu: "Tá dando risada por quê? Tem alguma coisa de engraçada aqui? A senhora está achando graça de alguma coisa?"
A audiência ocorreu em 21 de maio de 2024, mas só agora as imagens do depoimento de Fátima Francisca do Rosário, de 61 anos, empregada doméstica, tornaram-se públicas. Fátima foi ouvida como testemunha em um processo que discute a interdição de bens de Ondina, de 94 anos.
A ação foi movida por um sobrinho-neto, que questiona a validade da venda e da doação de imóveis feita pela idosa a um terceiro, sob a alegação de que ela estaria 'confusa mentalmente' e com 'lapsos de memória'.
Além disso, Fátima depôs em uma ação criminal. Ela afirmou na ocasião que viu Ondina conversando normalmente sobre o próprio patrimônio. Relatou que trabalhou como funcionária na residência da idosa e acompanhou sua rotina antes do diagnostico de Alzheimer de Ondina, sustentando que, à época, ela demonstrava lucidez.
A CNN transcreveu o início da audiência. É constrangedor:
"Dona Fátima Francisca do Rosário, é isso?", perguntou o juiz.
"Dona Fátima, tá ouvindo, dona Fátima?", insistiu.
"Milton, tá desligado?", indagou o magistrado ao serventuário de Justiça.
"Tô ouvindo", respondeu Fátima.
"Se a senhora tá ouvindo, dona Fátima, a senhora responda", instou o juiz.
"Tô ouvindo", respondeu a testemunha.
"Eu tô perguntando: a senhora é dona Fátima Francisca do Rosário, é isso?", seguiu o magistrado.
"E eu não tô respondendo? É a terceira vez que eu respondo", disse Fátima.
"Não, se foi a terceira vez que a senhora respondeu ninguém ouviu. É dona Fátima Francisco do Rosário, é isso?".
"Isso", respondeu a depoente.
"Boa tarde, dona Fátima", disse o juiz.
Resposta: "Boa tarde."
"A senhora é parente de alguém envolvido nesse processo?"
Resposta: "Não."
"[inaudível] . por quê, dona Fátima?", questionou o juiz.
"Oi?", disse Fátima.
"Tá dando risada por quê? Tem alguma coisa de engraçado?".
"Eu não. não tô dando risada", respondeu Fátima.
Segundo laudo apresentado pela defesa, Fátima é portadora de biprotrusão maxilar, uma condição que altera a projeção dos lábios e pode dar a impressão de que a pessoa está sorrindo mesmo em repouso.
"As arcadas dentarias tanto superior quanto inferior se encontram avançadas, além disso a paciente apresenta oclusão classe 3, o que em conjunto com a deformidade impede um correto fechamento da boca fazendo com que a paciente não apresente fechamento labial", diz o laudo.