A proposta de acabar com a escala 6x1 e reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas é vendida como avanço social, mas os números divulgados pela CNI sugerem um efeito colateral pesado, que costuma ser subestimado no debate público: a conta vai cair sobre a produção, o emprego e, no fim, o bolso do consumidor.
Segundo o levantamento, para manter o mesmo volume de horas trabalhadas, as empresas teriam de pagar mais horas extras ou contratar gente nova, o que elevaria os custos com empregados formais entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano, um aumento que pode chegar a 7% na folha.
Na indústria, onde margem, produtividade e competição externa já são temas sensíveis, o impacto proporcional seria ainda maior, podendo chegar a 11,1% da folha. A CNI estima despesas adicionais de até R$ 87,8 bilhões no cenário de horas extras e de R$ 58,5 bilhões no de novas contratações. E não é um aumento “pontual”: 21 dos 32 setores industriais teriam alta acima da média, com construção e transformação entre os mais pressionados.
O problema central é que a medida mexe direto no custo da hora trabalhada. A própria CNI calcula que a redução da jornada elevaria em cerca de 10% o valor da hora regular para contratos acima de 40 horas semanais. Em mercados onde preço e produtividade definem sobrevivência, isso tende a virar pressão de custos, perda de competitividade e, como alertou o presidente da confederação, Ricardo Alban, risco de queda de atividade, renda e PIB, se as horas não forem repostas.
O discurso de que a mudança criaria vagas automaticamente também precisa ser tratado com cautela, porque a adaptação não é igual para todos. Micro e pequenas empresas industriais, que concentram grande parte do emprego formal, são apontadas como as mais vulneráveis. No cenário de compensar com horas extras, companhias com até nove empregados poderiam ter aumento de R$ 6,8 bilhões, alta de 13% nos gastos com pessoal; já as maiores teriam alta de 9,8%. Mesmo na hipótese de contratar, o peso continua relevante, com alta de 8,7% para as menores.
No fim, a discussão sobre o fim da escala 6x1 pode até ser legítima do ponto de vista social, mas a proposta não pode ser empurrada como se fosse custo zero. Sem uma transição bem desenhada, recortes setoriais e mecanismos que reduzam o impacto na folha, o risco é transformar uma promessa de “qualidade de vida” em uma dinâmica de menos produção, mais informalidade e menos emprego formal, exatamente o oposto do que o país precisa.