A história do jornalismo brasileiro registra episódios em que a submissão ao poder de turno ou a conveniência política silenciaram redações inteiras. Mas poucas vezes se viu um consórcio de omissão tão escandaloso quanto o que cercou, nas últimas semanas, as revelações sobre as conexões entre integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Master. O que começou como uma investigação sobre esquemas financeiros heterodoxos e pressões políticas transformou-se em um teste de sobrevivência para o que resta de credibilidade da mais alta Corte do país.
O caso, que ganhou contornos dramáticos com a atuação dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, gira em torno de uma teia de interesses que mistura decisões judiciais favoráveis, jantares nababescos em capitais europeias e uma tentativa sistemática de amordaçar quem se atreve a publicar os fatos.
O Banquete em Londres
A ponta do iceberg emergiu com detalhes sobre um evento em Londres, financiado por Daniel Vorcaro, o controlador do Banco Master. Planilhas apreendidas pela Polícia Federal indicam que a programação total custou US$ 650 mil (cerca de R$ 3,5 milhões). Entre os mimos oferecidos a autoridades brasileiras, estavam garrafas do refinado uísque escocês Macallan, degustadas no George Club, um dos endereços mais exclusivos da capital inglesa.
Estavam presentes Alexandre de Moraes e outros membros do STF. O problema, contudo, não reside apenas na ostentação, mas na promiscuidade: o anfitrião Vorcaro tinha interesses diretos em processos que tramitam ou tramitaram nas mãos daqueles que ali se banqueteavam.
A Reação do "Sistema"
Em vez de explicações transparentes, o país testemunhou uma reação furiosa. Alexandre de Moraes, usando o aparato do Estado e os inquéritos que ele próprio conduz, partiu para o ataque contra jornalistas. Buscas e apreensões, quebra de sigilos e ameaças de prisão tornaram-se as ferramentas de resposta a reportagens fundamentadas em documentos e fatos.
A tentativa de "assassinar a verdade" passou a ser a estratégia oficial. O objetivo é claro: intimidar a imprensa livre para que o caso Master caia no esquecimento. No entanto, o efeito foi o oposto. A agressividade da censura serviu apenas para confirmar que o conteúdo das denúncias toca em feridas profundas e expõe uma mancha que, desta vez, não poderá ser lavada com notas oficiais ou decisões monocráticas.
O Julgamento Decisivo
O STF encontra-se agora diante de uma encruzilhada. No plenário, os ministros precisam decidir sobre a manutenção de medidas que protegem o grupo envolvido ou se permitirão que a Justiça siga seu curso natural. O voto do ministro André Mendonça, que detalhou armas, grupos de intimidação e 27 indícios de irregularidades, colocou os colegas contra a parede.
Fux deverá apoiar Mendonça. Gilmar Mendes, como de costume em casos que envolvem o "garantismo" seletivo, tende a votar contra. Nunes Marques, que tem mantido um silêncio enigmático, pode ser o fiel da balança. Caso o tribunal opte pelo corporativismo, o empate ou a vitória da tese de soltura do grupo Vorcaro determinará a capitulação definitiva da Corte diante do poder financeiro.
A Mancha Eterna
A verdade é teimosa. Mesmo que o STF consiga, momentaneamente, silenciar vozes críticas ou proteger aliados de ocasião, o dano à imagem do Judiciário é irreversível para esta geração de magistrados. O Brasil que pensa e que preza pela ética já não consegue olhar para certas togas sem enxergar as sombras de Londres ou os interesses do Banco Master.
Se o Supremo optar por virar comparsa do Master ao assassinar os fatos, ele selará o seu destino perante a história. Existem erros que podem ser corrigidos e decisões que podem ser revistas. Mas o envolvimento direto em esquemas de favorecimento, selado por jantares luxuosos enquanto se persegue o mensageiro da notícia, gera uma mancha que nada remove. A mancha que identifica os culpados é eterna.
Revista Oeste