Durante a campanha presidencial de 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou duramente a política de preços da Petrobras. Em um vídeo divulgado pelo próprio partido em 25 de março daquele ano, Lula afirmou:
“Alguém na sua casa ganha em dólar? Seu salário sobe quando o dólar sobe? Então por que a Petrobras está ajustando o preço do combustível ao dólar? O Brasil é autossuficiente em petróleo e o custo do nosso petróleo é em real. No governo do PT, a gasolina, o gás e o diesel eram em real. Lutar para abrasileirar o preço dos combustíveis é um compromisso do PT. Se a gente quiser, a gente pode.”
Quase quatro anos depois, a realidade econômica do país coloca em xeque essa promessa. Apesar do discurso de “abrasileirar” os preços dos combustíveis, gasolina e diesel continuam sujeitos a pressões do mercado internacional — e seguem pesando no bolso do consumidor.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o preço médio da gasolina no Brasil gira em torno de R$ 6,30 por litro, enquanto o diesel está próximo de R$ 6,10 em média nacional. Em Natal, o Diesel já passa de R$ 7,49 e a gasolina já pode ser encontrada a R$ 7,75.
Nos últimos meses, os combustíveis voltaram a subir nos postos. A escalada ocorre em meio à alta internacional do petróleo, impulsionada por tensões geopolíticas no Oriente Médio e pelo encarecimento do barril no mercado global.
A situação chegou a preocupar o próprio governo. Em março de 2026, a administração federal decidiu zerar impostos federais sobre o diesel e criar uma taxa sobre exportações de petróleo numa tentativa de conter o impacto da alta de preços no país.
Mesmo com essas medidas emergenciais, o aumento de custos internacionais continua pressionando o valor do combustível no Brasil — exatamente o mecanismo que Lula criticava durante a campanha eleitoral.
Especialistas do setor lembram que o país não é totalmente independente do mercado externo, principalmente no caso do diesel, já que cerca de um quarto do combustível consumido no Brasil ainda precisa ser importado. Isso faz com que variações internacionais inevitavelmente influenciem os preços internos.
O contraste entre discurso e prática evidencia a dificuldade de cumprir a promessa de “desdolarizar” os combustíveis. Na campanha, Lula sugeria que bastaria vontade política para desligar o preço brasileiro das cotações internacionais. Na prática, três anos depois, o próprio governo se vê obrigado a reagir às mesmas forças de mercado que criticava.
Assim, a fala de 2022 — usada como argumento eleitoral contra a política de preços da Petrobras — hoje expõe um paradoxo: mesmo com o PT novamente no poder, o preço do combustível continua sensível ao dólar, ao petróleo internacional e às crises externas.